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O Homem de Turing

 (Ver. 15 de Agosto de 1997)
Fernando Lisboa
Faculdade de Arquitectura, Universidade do Porto
mailto:fernando@mail.kpnqwest.pt
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This is an unrevised version of the Introduction and 1st chapter of Desenho de Arquitectura Assistido por Computador, FAUP Publicações, Porto. I wrote this book during 1996; it was published in October 1997. Though this text is deficient chiefly in what it omits rather than what it contains, it has some clues and references that are not impertinent. Since web based texts are not page numbered, paragraph numbers have been added to this on-line version for purposes of reference. Comments are welcome.

 

1       Introdução

§1       A maior parte dos homens e das mulheres, por mais limitados que possam ser os seus horizontes culturais, procuram interpretar os acontecimentos que as rodeiam, colocando-os 'em perspectiva'. Quer isto dizer que as pessoas, face a determinados acontecimentos, que aparecem como coisas soltas e aleatórias, procuram, de alguma forma, inseri-los num quadro de referências que  permita extraír-lhes sentido e significado. Quando colocados perante o condicional, o incondicional é-nos dado como problema. Problematizar as coisas e o mundo não é portanto algo particularmente artificioso, exclusivo, especial. Pelo contrário. Releva de uma necessidade vital e permanente de compreender o que nos rodeia, de entender o ambiente que nos cerca, localizar-lhe vantagens e oportunidades, riscos e ameaças. Em que consiste, pois, o problemático do problema? Consiste, a meu ver, na dificuldade de traduzir aquilo que é narrativa tácita e implícita, num discurso explícito, logo, transmissível e criticável.

 §2       Este texto é extraído do documento-base que orienta o curso teórico da disciplina de Projecto Assistido por Computador, leccionado ao 6º ano do Curso de Arquitectura. Pretendo, aqui, estabelecer uma descrição geral da natureza e características dos sistemas de desenho computacional a partir de uma perspectiva particular: a da representação de arquitectura, ou seja, do desenho de representação de arquitectura. Pretendo, neste texto, partindo dessa descrição geral, estabelecer referências que permitam construir uma eventual teoria computacional de projecto. Considero que é urgente dispôr de um modelo crítico, que possa, no mínimo, ser objecto de refutação. No cap. 1, procuro enquadrar os sistemas de desenho assistido.dentro de um conceito mais lato: o das tecnologias de informação. Entre os que olham o computador e vêm inovação e revolução e os que, olhando para o mesmo computador, vêm linhas de continuidade e de permanência, situo-me, decididamente do lado destes últimos. A este respeito, tomo emprestados o conceito de tecnologia definidora, de Bolter, e o conceito de máquina evocativa, de Turkle. Parece-me que uma máquina que processa símbolos não se esgota na sua instrumentalidade, na sua positividade. Pelo contrário, influencia, configura, questiona. No cap. 2, [...] Os capítulos 3 e 4 [...]

§3       De um modo geral, estabeleço distinções entre arquitectura, geometria e desenho, enquanto corpos de conhecimento, enquanto disciplinas autónomas, independentes, embora permeáveis. Refiro-me, ao estabelecer estas distinções, ao que elas são.  Estabeleço, também, distinções entre as tecnologias da arquitectura, por um lado, e as tecnologias da geometria e do desenho, por outro. Refiro-me, ao estabelecer essas diferenças, ao que elas fazem. De forma geral, tomo como premissa básica a seguinte proposição: que o desenho é, em arquitectura, um efectivo método de conhecimento. Sergio Loos, na sua introdução ao Vedere con il Disegno, de Massironi, a propósito do cubo perspectivado de Piero de la Francesca, refere-se a Fiedler e à sua crítica do figurativismo puro. Fiedler considera que a arte é não só produto mas também instrumento de cognição. Loos considera que "(…) a construção do desenho como representação não só qualitativa, mas também quantitativa da tridimensionalidade do espaço, faz emergir a projecção como prefiguração racional do artificial" (Massironi, 1982). Importa, portanto, que as ferramentas de desenho, não importa se manuais se computacionais, contribuam para este programa - certamente englobado por uma ideia pesada de arquitectura - o do desenho como exercício de reconhecimento progressivo dessa realidade artificial: o projecto.

 2       O Homem de Turing

 2.1       Comunicação e Informação

 §4       A tecnologia pode ser definida, de forma geral, como a extensão intencional das capacidades humanas, como potenciadora das competências inatas do ser humano. É esta definição que permite, por exemplo, considerar o motor de combustão interna uma tecnologia. Mas a mesma definição permite também considerar a linguagem humana ou as formas de organização social como realizações tecnológicas. Extremando a definição, o próprio cérebro humano pode ser encarado como uma tecnologia, na medida em que apresenta características induzidas pela linguagem e pela interacção social. A análise do significado das  Tecnologias de Informação balança entre as teses de revolução e as teses de continuidade. Este debate não se restringe, sómente, a um âmbito académico. Ele afecta profundamente as expectativas e as formas de interacção entre as pessoas e as tecnologias de processamento de informação, mas também reflecte debates mais alargados que mobilizam filósofos, sociólogos, economistas e, de uma forma geral, aqueles que se preocupam em determinar as relações que a sociedade e a cultura actuais mantém com a História. Muito sumariamente, procura-se determinar até que ponto o contemporâneo é marcado pela emergência de novos paradigmas, ou seja, novas noções dominantes acerca do Homem e da Natureza, ou se, pelo contrário, os paradigmas actuais mais não são que a expressão de totalidades orgânicas concebidas e organizadas ao longo do séc. XVIII - o projecto das Luzes ou da Ilustração - e concretizadas por aquele conjunto de fenómenos que Lewis Mumford, nos anos 30, designou por Revolução Industrial. Trata-se de um debate que não é, de todo, estranho ao campo disciplinar da arquitectura e da historiografia da arquitectura. A oposição entre tradição e modernidade instalou-se nos anos cinquenta, a partir do momento em que o Movimento Moderno deixou de ser encarado como fenómeno unitário, privado de contradições profundas, encarregado de separar a arquitectura da sua tradição material e histórica. A oposição entre revolução e continuidade revela-se, também, sempre que se questiona a legitimidade da arquitectura e se esta legitimidade deve residir, ùnicamente, parafraseando Paolo Portoghesi, numa " explosiva mistura de génio, individualidade e de tecnologia no seu estado puro ".

2.1.1     A Ideologia da Comunicação

 §5       Claude Henry de Saint Simon construiu, entre 1814 e 1825, uma das sínteses mais notáveis do projecto da Ilustração. Ele conjuga as ciências da observação - da histologia de Xavier Bichat à física dos corpos em movimento de Jean Offroy de la Mettrie  - com as ciências da organização dos engenheiros das Ponts et Chaussés, herdeiros de Vauban, director das fortificações e marechal de França. Saint Simon concebe uma fisiologia social que enquadra as suas " ideias para a construção do sistema social ". Na sua obra, desde  "De la Reorganisation de La Société", 1814, até "Le Nouveau Christianisme", 1825, ele metaforiza a sociedade como organismo e considera-o, esse organismo, formado por um tecido de redes, um enredo de redes, cuja organização, dir-se-ia hoje gestão,  é o objecto de uma ciência exacta, positiva: a fisiologia social ou a higiene social. Saint Simon elabora uma teoria da administração política que substitui o "governo dos homens" pela "administração das coisas". As redes de comunicação e de circulação, de bens, de pessoas e de dinheiro - "tudo pelo vapor e pela electricidade" - aparecem como fundamentais para obstar a uma sociedade que já não é senão um aglomerado de indivíduos isolados e concorrentes. A este respeito, propõe, por exemplo, a criação de uma Confederação Europeia, dotada de um parlamento e encarregada de harmonizar os interesses divergentes dos países europeus e estabelecer um consenso de poderes.

 §6       O projecto de uma fisiologia social remete directamente para o conceito de sistema e relaciona-se com a ideologia da comunicação e a ideia de redes. Denis Diderot explica, na Enciclopédia, o sistema como "(...) a disposição das diferentes partes de uma arte ou de uma ciência num estado em que todas se apoiam mútuamente e em que as últimas se apoiam pelas primeiras". Diderot ilustra a definição comparando o seu sistema com os autómatos de medir o tempo, ou seja, com os relógios: "(...) do mesmo modo que num relógio existe um dispositivo principal de que dependem todos os outros, também há, em todos os sistemas, um primeiro princípio ao qual se subordinam todas as diferentes partes que o compôem." Os sistemas, dada a sua integridade interna e a sua capacidade de auto-regulação, são comparados aos seres vivos - como numa  metáfora biológica - e estes, tanto quanto as organizações sociais, são entendidos como máquinas ou autómatos. Os relógios, máquinas que alteram a percepção do tempo e, logo, do mundo, simbolizam a Machina Machinarum com que Descartes tinha povoado a sua noção de `extensão` e constituem, para a segunda metade do séc.  XVII a tecnologia definidora das tendências gerais da cultura, tanto quanto o computador o é para a segunda metade do séc. XX. " O corpo humano é um relógio, mas imenso, e construído com tanto engenho e habilidade (...)" escreve De La Mettrie em "O Homem Máquina", de 1747. Este analogon setecentista, de acordo com Matellart, continua, hoje, tão obsidiante, enquanto matriz cultural e paradigma unificador, como o era para os enciclopedistas.

 §7       "Desde a entronização da noção de informação" estabelecida tanto por Claude Shannon em 1946 com a primeira teoria matemática da comunicação e da informação, designada por cibernética, como por Erwin Schrodinger, que introduz as noções de informação e de código para descrever em "What is Life?" o modelo de desenvolvimento dos seres vivos contido no ADN, "(...) temos (...) o direito de perguntar se não foi mesmo ( a metáfora biológica ) que causou mais estragos, a tal ponto se multiplicaram as contradanças entre a ciência da vida e as representações da comunicação" (Matellart, 1994). É difícil resistir a apontar semelhanças entre a definição de sistema de Diderot e a noção de Gestalt ou configuração, tão cara à Bauhaus e à escola de Ulm, e tão estreitamente relacionada com um outro conceito, o de metodologia, em particular o de metodologia arquitectónica. Marcolli, na sua "Teoria del Campo" exemplifica o conceito de metodologia com a análise da casa Chamberlain, de Gropius e Marcel Breuer. A noção de configuração sustenta as noções de tipologia e de metodologia e pressupõe um conjunto de objectos formado por sub-conjuntos conectados entre si de maneira necessária e condicionante. Isto quer dizer que a alteração de um dos subconjuntos do sistema implica a alteração da totalidade do sistema. Por outras palavras "(...) il ristabilimento del equilibrio non dipende da una semplice addizzione o sottrazione delle parti, ma di una disposizione diversa dell´insieme" (Marcolli, 1986). É esta definição de Gestalt que conduz ao conceito de metodologia como a maneira particular de organizar ou compôr as partes de um conjunto de tal forma que as relações que mantenham entre si sejam as necessárias e suficientes para garantir a inteireza e harmonia intríseca desse conjunto - "(...) il concetto di metodologia (permite) la compreensione del concetto di autoregulazione di un sistema." (idem) A metodologia é o princípio que organiza a forma. É também difícil resistir a apontar semelhanças entre o homem-máquina de La Mettrie e o que hoje alguns autores designam como o homem de Turing, o homem que utiliza o computador como dispositivo evocativo, isto é, como representação do paradigma cultural dominante. Quando Paul Laurent Assoun analisa o "O Homem-Máquina", localiza com extrema acuidade a natureza dos dispositivos evocativos. " Na percepção dos autómatos ( o olhar científico de De La Mettrie ) não vê apenas o resultado de um mecanismo que imita o ser vivo, mas o próprio ser vivo, há muito identificado como mecânico, a admitir a sua verdade. Não é que o autómato dê a ideia do homem como máquina, mas sim que, sob a sua figura, o homem como máquina é dado a ver, impõe-se (...) a necessidade de o nomear e de o fundamentar por meio do discurso." Da mesma forma, o computador, tecnologia definidora, que redefine a relação do homem com a natureza, evoca o ser humano como processador de informação e a natureza como informação a ser processada - a comprová-lo, o triunfo dos estruturalismos, das semióticas e, hoje, das hermenêuticas.

§8       De regresso a Claude Henry de Saint Simon. Da sua obra, os discípulos, Barthélemy e Enfantin, Chevalier e Fourier, retiram " um discurso sobre as virtudes redentoras das novas técnicas e (...) uma estratégia de transição para a era positiva através das redes de comunicação e das redes de finança" (Matellart, 1994) e a convicção de que o mundo é perfectível - uma reprise do "Novum Organum", desta vez com os recursos tecnológicos que Francis Bacon não dispunha. Saint Simon, tanto quanto Darwin e Le Comte, está ligado de forma indissociável à génese  das ideias de desenvolvimento e de evolução tal como as concebemos hoje, ora como ideologia do progresso inevitável, ora como tese do crescimento vertical e linear que as crises energéticas dos anos setenta e uma maior atenção às questões ambientais vieram substituir pelo eufemismo do desenvolvimento sustentado. A ideia de redes de comunicação mantém intactas as suas virtudes redentoras - já não transportam pessoas e bens em caminhos-de-ferro nem mensagens por telégrafo, suportam fluxos de informação digital medidos em Kbytes por segundo. Também o projecto de Chevalier para uma Confederação Mediterrânica designou-a MacLuhan como aldeia global, Tofler como como terceira vaga e George Gilder como auto-estrada de informação.

2.1.2     A Ideologia da Informação

§9       Não parece, portanto, difícil adivinhar linhas de continuidade com o passado histórico naquelas ideias e fenómenos que, por serem recentes, aparecem como inovadores e até revolucionários. Apesar de o primeiro volume da Enciclopédia ter sido publicado em 1745, considera-se, com frequência, ser a Comunicação a matriz e a marca do contemporâneo. Essa frequência justifica-se, naturalmente, pela inovação tecnológica mais recente, a que acontece a partir dos anos 40, e, sobretudo, pela sua banalização ou massificação. Ainda assim, apesar da permanência e actualidade do projecto da Ilustração, é possível estabelecer uma diferença substancial entre Saint Simon e Alvin Tofler. Enquanto que no século XIX a ideia de redes de comunicação - suportadas pela metáfora biológica - corresponde a utopias tecnológicas que remetem para a necessidade de um esquema preciso de reorganização da nova sociedade industrial, hoje o ênfase colocado na ideia geral de redes de comunicação parece corresponder a uma percepção da capacidade limitada das pessoas em compreender e transformar a realidade que as cerca. O mundo parece ser menos perfectível e a realidade, intuída como construção social, afigura-se a uma daquelas obras abertas de Umberto Eco. A ideologia da comunicação parece ter sido substituída pela ideologia da informação. Duma forma geral, a ambição de verdade é substituída pela aceitação do consenso - veja-se Peirce - e aceita-se a impossibilidade de proposições objectivas mesmo no campo das ciências ditas duras. Os conceitos de inter-subjectividade, de leituras plurais e de inter-disciplinaridade e o prestígio crescente da hermenêutica como método, senão ciência, da interpretação de factos e textos assinalam, visivelmente, a descrença nos nos valores do positivismo. Estes conceitos são paralelos aos da interdependência das economias e aos da soberania partilhada, que ampliam e sedimentam essa cultura da comunicação.

 §10     Porém, não é afirmado com menos insistência  - Ibsen é uma referência óbvia - um crescendo de incomunicação, um défice entre a oferta de meios e a oferta de conteúdos. Esta tese foi apontada por Lewis Mumford, em 1934, ao defender que as inovações tecnológicas da época eram ainda empregues ao serviço dos valores e das metas da primeira revolução industrial. Mumford lamentava que a tecnologia, sobretudo a abundância de tecnologia, embora permitisse construir um maravilhoso mundo novo - o que, aliás, Orwell se apressou a desmentir - fosse utilizada para continuar um mundo obsoleto.

 §11     Do ponto de vista ético, de que se fala, quando se fala de comunicação? De acordo com Victoria Camps, à comunicação efectiva corresponde a construção de " níveis de compreensão satisfatórios (...) consensos que dirimam disputas ( ... )  intercãmbio activo de ideias, valores e interesses ." ( Camps, 1996 ) Parece ser, portanto, a ausência de intercâmbio activo, poderia dizer-se interacção, que define a incomunicação. Neste sentido, poderia apontar-se como particularmente notável a décalage entre a produção artística e os mass-media. Os artistas têm extrema dificuldade em comunicar os seus pontos de vista e as suas interpretações pessoais a grande parte das outras pessoas mesmo quando o objecto de arte é conceptualizado, pensado e construído como aparato de  comunicação. De um modo geral, a obra de arte assume-se como um sistema de signos, para usar a expressão de Barthes, no interior do qual existe uma dissociação completa entre a consistência lógica interna e quaisquer veleidades de verdades e significados categóricos. Do ponto de vista pragmático, de que se fala, quando se fala de comunicação? Se é verdade que a mensagem não é o media, os media actuais, os chamados audio-visuais, estimulam fortemente a simplificação da mensagem. Isto apresenta dois problemas. Por um lado, é sabido que o essencial raramente é simples, directo e convincente - os media comunicam o acessório, o acidental. Por outro lado, e uma vez que os conteúdos tornam-se objecto de consumo, é natural que o mercado cultural encoraje a visibilidade do produto - a cultura de comunicação é uma cultura de imagem e de aparência. Ora, "(...) para ver não é imprescindível a presença material do outro que é, em troca, imprescindível para falar" (idem). Neste sentido, ainda de acordo com Camps, talvez seja necessário dizer que é excessivo utilizar o termo comunicação para designar aquilo que, em sentido estrito, consiste em transmissão de informação. "Aquilo que (..) os meios de comunicação fazem é informar. Informar é um acto menos ambicioso, unilateral" (idem).

 §12     Em 1982, Edward Nelson, juntamente com John Walker, o fundador da Autodesk, conceberam o projecto Xanadu, o qual viria a ter uma enorme influência no desenvolvimento e na estrutura básica da Internet. O termo Xanadu remete para o poema de Coleridge, " Kublai Khan" e, obviamente, para o palácio de Kane, do filme de Orson Wells. O Xanadu de Nelson e Walker não seria, contudo, a moradia de um imperador nem de um poderoso tycoon, mas um imenso tesouro de conhecimentos, uma enorme livraria digital cum base de dados, a que todas as pessoas poderiam recorrer, quer para consultar quer para publicar conhecimento. Uma ideia generosa e arrojada que jamais se concretizou porque, provavelmente, colocava em causa a natureza e o objectivo das tecnologias de informação: o de  constituírem  dispositivos gerais de controle.

 §13     De acordo com Beninger, as Tecnologias de Informação constituem a manifestação mais recente de uma situação que remonta , pelo menos, a duzentos anos atrás. A sociedade de informação é vista como uma resposta continuada a uma crise geral de controle das sociedades e das organizações, provocada pela Revolução Industrial. A industrialização, como se sabe, recorreu ao uso de capital intensivo para financiar a exploração de combustíveis, pagar trabalho contratado e para implementar tecnologia. Resultaram sistemas sociais e empresariais maiores e mais complexos e, sobretudo, mais diferenciados e interdependentes. Os mercados locais passaram a mercados globais, a relação directa entre produtores e consumidores passa a relação intermediada, surge o que Beninger designa como o mercado segmentado. Max Weber estudou aquilo que lhe pareceu um dos fenómenos mais intrigantes do seu tempo, a burocracia, e identificou-a como um dispositivo de controle das forças socias emergentes. A burocracia de Weber manteve-se até ao final da II Guerra e, a partir dos anos 50, é progressivamente substituída pela, então, nova tecnologia de processamento de dados: a calculadora electrónica. Beninger, ao contrário de, por exemplo, Toffler, analisa estas tecnologias não como causa de mudanças sociais relevantes, mas sim como a sua consequência. Neste sentido, a rápida inovação verificada nas tecnologias de informação configura uma verdadeira revolução das formas de controle social. Uma revolução conservadora, passe o paradoxo. Até ao séc. XIX, "(...) o controle dos governos e dos mercados dependia das relações pessoais (...) A revolução do controle representou o início da restauração do controle económico e político que se tinha perdido, em muitos níveis da sociedade, durante a revolução industrial" (Beninger, 1986). Transmitir informação, acção unilateral, de sentido único, significa, quase sempre, controlar os meios da transmissão, controlar os efeitos da recepção e controlar as consequências do retorno. O computador, máquina universal, ubíqua, máquina de formalização e armazenamento de informação, aparece como o suporte ideal para concretizar esse objectivo central, que poderia qualificar-se, sem grande risco de exagero, como estratégico, o de controlar uma realidade intuída como construção social e, portanto, despojada de qualquer objectividade intrínseca. Uma realidade irreconhecível, descontrolada. Na perspectiva de Beninger, orientada para o estudo da génese da sociedade de Informação, as tecnologias de Informação são, sobretudo, o suporte técnico para uma resposta à crise geral de controle provocada pela Revolução Industrial. (idem)

 §14     A História permite ler as permanências que ligam a tecno-utopia de Saint Simon à tecno-utopia de Edward Nelson, mas também as permanências que ligam o projecto da Linguagem Universal de Leibniz ao projecto neo-positivista. A propagação da lógica e dos códigos do processamento de informação, coloca, hoje, em agenda o projecto de uma grelha de interpretação comum a todas a áreas da actividade cognitiva, através da codificação e formalização do conhecimento, seja ele do tipo científico, humanístico ou artístico. As ciências moles, as ciências do Homem, aspiram à respeitabilidade das ciências duras, as ciências da natureza, e revêm-se como bases de dados de conhecimento - knowledge database. A taxonomia do conhecimento, estabelecida no séc. XIX, que distingue a arte da ciência, as ciências da natureza das ciências do homem, as belas-artes das artes menores, torna-se, de novo, improvável ou, pelo menos, difusa. Tecnologia definidora, mas também tecnologia de controle, o computador é também a tecnologia charneira porque permite estabelecer a osmose progressiva entre o conceito geral de comunicação e o conceito geral de informação. Hoje, as tecnologias de comunicação são as tecnologias de informação e o mundo não é mais perfectível. E este facto, a História permite lê-lo como uma ruptura.

 2.2       A Máquina Universal

 §15     A extrema rapidez com que as Tecnologias de Informação se disseminaram e banalizaram nos campos da ciência, da enge­nharia e da arte e a sua aspiração confessada em transforma­rem-se em agentes interventores nos processos cognitivos as­sociados àqueles campos de actividade, levanta, pelo menos, a necessidade de perceber as razões de um sucesso tão fulgu­rante como rápido. Como entender a actividade cognitiva - pensar e problematizar - e a comunicação entre pessoas e culturas quando o conhecer e o comunicar são mediados por máquinas para processamento automático de informação? As próprias condições de criação artística  são profundamente alteradas pela utilização de máquinas de processamento de texto, de computação de gráficos e de bases de dados. As diferenças entre comunicação e informação esbatem-se, di­luem-se, não fazem já sentido.

 §16     A actividade científica substitui a experiência sobre o real, o método empírico, o raciocínio da indução, pela modelação e simulação computorizadas enquanto que, por outro lado, o processamento de dados impõe com tal convicção os seus códigos e lógicas internas que estas se transformam no modelo dominante para pensar os processos físicos e biológicos. Pierre Lévy re­fere, a este respeito, que as ciências cognitivas "(...) já não concebem a memória, a aprendizagem ou a percepção sem serem esquematizadas por algoritmos(...)" (Lévy,1987). O pa­radigma informático consiste precisamente nisto: "(...) dar conta de um fenómeno biológico, neurológico ou psicológico ( é obter dele ) um modelo sob a forma de processamento de in­formação" (idem). As implicações deste paradigma são múltiplas e evocam questões de natureza ontológica  e metodológica. São os sistemas físicos, vivos, psíquicos e sociais dispositivos de processamento de informação? Será possível impor como necessária uma única racionalidade científica, codificável e aplicável a todos os objectos de todas as ciências, ambicionando menos explicar o mundo do que calcular e prever o seu comportamemto?

2.2.1     O Paradigma Informático

 §17     Tal como na ciência, que abandona a realidade para se concentrar nos modelos dessa realidade, também a arte enceta um percurso semelhante. " A evolução do sentido do desenho iniciou-se com o impressionismo e com os movimentos pré-ex­pressionistas, com o abandono do mundo como modelo" (Vieira, 1994). Face à colonização do mundo pelo Ocidente comercial e industrial, no final do século XIX, aos progressos dos estudos etnológicos e arqueológicos, aos livros e às revistas de arte, à multipli­cação e extensão extraordinária dos museus, o artista encontra-se confrontado com toda a diversidade das criações humanas e com a possibilidade de todos os possíveis. O pluralismo torna-se um imperativo.

 §18     "(...) com o dadaísmo surge a negação da própria legitimidade da criação artística e com o surrealismo ( surge ) a proposição do desenho auto­mático. Com o conceptualismo, o desenho passou a ser projecto (...) quer ser intelecto, quer ser razão. Quer ser mais do que representação (...) " (idem), dir-se-ia que quer ser demonstração. No final dos anos 50, o desenho de representação "(...) foi sendo substituído por metodologias oriundas das teorias modernistas, das teorias do abstraccionismo, sistematizadas na Bauhaus, em Ulm (...)O vigor das novas teorias (...) vieram articular-se no basic design, desenho dos procedimentos das geometrias (...) das cores puras (...) de tudo o que pode isolar-se introduzindo a análise e a sistematização, métodos quantitativos da criação do desenho (...) uma visão intelectualizante e racionalista" (idem). Em paralelo com outras tendências artísticas, que privilegiam a emoção, a expressão - body art, por exemplo - ou a mensagem política e de crítica social - a pop art, por exemplo - a ideia de arte como um trabalho formal sobre signos ou notações e com uma sintaxe interna consistente e, simultaneamente aberta a diversas interpretações críticas, parece marcar o zeitgeist  da modernidade, do hoje, tanto na pintura como na literatura, tanto na música como na arquitectura. Considere-se, como exemplo extremo, o trabalho de Peter Eisenman. Segundo Lévy "(...) o texto literário do séc. XX aproxima-se do sistema axiomático cuja pureza formal autoriza uma multiplicidade de modelos concretos ou de interpretações(...)" (Lévy, 1987) Estes conceitos, de sistema axiomático, de pureza formal, levados ao extremo conduzem, naturalmente, à possibilidade de estabelecer isomorfias estruturais, polissemias deliberadas e quase inesgotáveis. A tese de obra aberta, exposta por Eco, no princípio dos anos sessenta, embora visando a história inteira da literatura, e não só Proust, Kafka ou Joyce, não poderia, provavelmente, ter sido emitida, compreendida e aceite senão a partir dos anos sessenta.

 §19     No interior deste quadro cultural, compreende-se que o paradigma informático consista na descrição e na interpretação de fenómenos biológicos, físicos, psicológicos, sociais - e também artísticos - segundo modelos de processamento de informação. Para o cognitivismo puro e duro, como o de Marvin Minsky, Herbert Simon e Seymor Pappert, não há descrição rigorosa acerca de coisa alguma que não seja isomorfa de um programa de computador, e a própria informática é considerada como a "(...) ciência da descrição dos fenómenos (ou processos) complexos (...)" (Minski, 1972). A disseminação das máquinas de Von Neumann, "(...) é, ao mesmo tempo, o indício e o último operador duma mutação antropológica de grande envergadura (...)". Lévy singulariza e caracteriza a cultura ocidental, o Ocidente, por uma grande estrutura subjacente, a máquina universal, de que o computador seria apenas a confirmação técnica, tangível e contingente. Esta máquina universal, cuja genealogia remonta a Raimundo Lúlio e à sua Ars Magna e a Leibniz e à sua linguagem universal, e passa por Pascal, Babbage, Turing e von Neumann, teria como objectivo central a codificação integral do conhecimento, de todo o conhecimento. A consequência óbvia desta ambição consiste na eliminação progressiva de qualquer traço de subjectividade e incerteza, não tanto acerca dos conteúdos, mas acerca da maneira de os representar e comunicar. Uma representação silenciosa, sem os ruídos e os sons da subjectividade.

 2.2.2     Um Ideal de Precisão

 §20     Processar informação significa, antes de mais, calcular. O cálculo, em sentido estrito, consiste num conjunto de operações, exercidas de forma metódica e sequencial, sobre entidades matemáticas. Aliás, o cálculo é o método matemático por excelência. Contudo, em sentido lato, o cálculo consiste em quaisquer operações de substituição, de comparação, de permutação, de classificação e de combinação. Esta extensão do significado de "cálculo"  - processar informação é calcular  - é legítima se se considerar que processos e tarefa complexas são decomponíveis em sub-processos mais simples e estes, por sua vez, decomponíveis em sub-sub-processos und so wert, e que é justamente esta decomposição, este percurso da análise em direcção ao detalhe, do conhecer em direcção ao calcular, que permite a programação da máquina de Turing (fig. 1). A decomposição ou pulverização de processos aparece como duplamente vantajosa. Em primeiro lugar, porque permite reduzir o número de potenciais soluções a avaliar simultâneamente. Em segundo lugar,  porque a análise de um determinado processo e a sua decomposição permite a formalização desse processo, na medida em que se considera que um processo está formalizado quando se estabelece a ordenação das tarefas elementares e se definem as entidades sobre as quais se exercem essas mesmas tarefas ou operações.

 §21     Se  a definição exacta de algoritmo consiste, precisamente, numa sequência finita e ordenada de  regras, instruções ou operações, afim de resolver uma determinada classe de problemas, então formalizar um problema é definir o algoritmo da sua solução. O algoritmo, forte ou fraco, sendo, por um lado, condição suficiente para a formalização de um processo, de um fluxo de informações, é por outro lado condição necessária para a programação de máquinas lógicas. Os algoritmos são, frequentemente, desconcertantes: uma vez decompostas e formalizadas, as acções mais familiares, transformadas numa sequência discreta de tarefas mínimas, perdem a sua aparência habitual. O modelo de Bohr desconcerta porque o mundo não se parece com uma colecção de átomos, cada átomo com o seu núcleo, cada núcleo com protões e neutrões. "(...) A percepção global desaparece em prol de um rigor extremo na explicitação e na descrição; aí não se faz a divisão da realidade à volta dos pólos de significação, mas segundo uma lógica puramente operacional (...) Desta forma, os objectos , os processos, as palavras, são decompostos, analisados, processados pela informática a uma escala tão pequena, que já não há para nós qualquer imagem perceptível: apenas uma interminável série de ocorrências de símbolos, átomos de circunstâncias (...)" (Lévy, 1987). O cubismo e o pontilhismo ilustram a pulverização do objecto artístico concreto em componentes elementares. A obras de Mondrian ou de Kandinski atingem um nível de axiomatização e, logo, de coerência interna de tal forma elevada, com os seus símbolos, as suas cores, os seus materiais, as suas regras compositivas estritas, que acabam por eliminar qualquer referente exterior. Uma tendência semelhante é patente nas obras de Proust, Musil ou Joyce, numa "(...) descida para o imperceptível comparável à realizada pela informática. (eles) descrevem acontecimentos ínfimos anteriormente negligenciados pelo romance, meandros do monólogo interior, sensações analisadas até ao limite último do dizível." (idem) A suspensão do sentido, tal como the suspension of disbelieve, é o corolário desta procura do elementar ao serviço de um ideal de precisão. Certas correntes de arquitectura, actualmente, perseguem, também, essa coerência interna de tal forma que na sua pura objectividade, a obra remete-se para si própria e a sua leitura crítica só pode ser realizada no interior dum estrito quadro de axiomas; ou, pelo contrário, experienciam a arquitectura como um conjunto de ideias e conceitos construtivos que remetem para a sua pormenorização tão exaustiva como compulsiva. Como se Deus estivesse no detalhe.

 §22     Num outro plano, a história do conhecimento poderia ser entendida como uma permanente dialéctica entre a ideia de "todo", de inteiro, de sistema, e a ideia de "parte", de elemento, de pormenor, de fragmento. Uma não se explica sem a outra: são conceitos recíprocos, mútuamente implicados e pressupostos. No terreno da  Arquitectura é tão frequente a análise crítica de determinadas obras a partir de detalhes ou de fragmentos como é frequente a produção de conteúdos - produção de sentidos - através de obras-detalhe ou obras-fragmento. Aí, nessa arquitectura, tal como em Musil ou em Proust ou em Joyce, a dialéctica todo/parte é interpretada de uma forma orientada, selectiva: ela é entendida como global/local, na medida em que o que se observa e se toma como pertinente é a noção de colocação das partes em relação ao todo. Este facto é particularmente interessante se se quiser demonstrar, como Calabrese, que "(...) a partir de um nível semântico de base se pode articular um autêntico sistema de diferenças lexicais (que explicam) não só os termos verbais como as práticas de análise ou de produção de sentido que possam ser dedicadas ao ´detalhe´ e ao ´fragmento´ enquanto utensílios interpretativos ou como efeitos estéticos (e que) correspondem a acções efectivas (...) a práticas significantes, verdadeiras démarches epistemológicas (...)" (Calabrese, 1987). É neste sentido que o computador, representante tangível e instrumental dessa démarche epistemológica, dessa procura do elementar, dessa ambição de precisão, pode ser entendido como sintoma e epítome de uma cultura emergente que, à falta de melhor, se designa como cultura de informação.

2.2.3     EDVAC

 §23     O primeiro computador simbólico foi proposto em 1936 por Alan Turing cerca de dez anos antes da construção do EDVAC, o primeiro computador tangível cuja arquitectura se deveu, em grande parte a von Neumann. No seu  ensaio "On Computable Numbers", Turing demonstrou que: "(...) todos os processos decomponíveis numa sequência ordenada e finita de operações, com um alfabeto restrito, que atingem o resultado desejado num tempo finito, podem ser realizados por uma máquina de Turing; inversamente, todos os trabalhos que uma máquina de Turing é capaz de realizar são algoritmos ou procedimentos efectivos (...)" (Lévy, 1987). Existe, portanto, um conjunto de tarefas que uma máquina de Turing não consegue realizar como, por exemplo, o cálculo de pi ou da raiz quadrada de 2. Pode encontrar-se uma descrição do funcionamento desta máquina simbólica em Kooge e em muitos outros autores. O que aqui interessa reter é que, mais do que definir com rigor o conceito de calculabilidade, isto é, de problema resolúvel por algoritmos, Turing demonstrou - executou a demonstração matemática - que é possível conceber um tipo de máquina capaz de resolver todos os problemas calculáveis, todos os processos ditos efectivos: a máquina universal, bastante mais abrangente que a máquina aritmética de Babbage ou o autómato jogador de xadrez, objecto de um célebre ensaio de E. Alan Poe, cujas conclusões não são, aliás, menos célebres. De facto, Turing demonstrou que uma tal máquina, com tais virtualidades, é concebível desde  que o seu quadro de instruções seja capaz de imitar o comportamento de qualquer calculadora particular, ou seja, de qualquer problema particular. "Não se fornece, pois, a uma máquina universal sómente os dados (ou parâmetros do problema) a tratar mas também a descrição codificada da máquina capaz de o resolver" (idem).  Dado que cada máquina particular se reduz à transcrição do seu quadro de instruções ou algoritmo, e como este é finito e ordenado sequencialmente, então esse algoritmo ou qualquer outro pode ser representado por uma sequência de símbolos abstractos guardados na fita perfurada, na fita magnética ou na memória de massa da máquina universal.

 §24     Em 1945, John von Neumann, no seu "First Draft of a Report on the EDVAC",  concebe a realização técnica e tangível da máquina de Turing e, simultaneamente, estabelece os fundamentos da actual arquitectura dos computadores electrónicos. Von Neumann concebeu uma calculadora na qual os programas de cálculo e os dados do problema seriam armazenados numa memória central - Random Access Memory ou RAM - a que uma unidade de processamento lógico e matemático teria acesso - a Unidade Central De Processamento ou CPU. O modelo pressupunha, naturalmente unidades de entrada de dados e unidades de saída de dados, ou seja, dispositivos de armazenamento de dados, designados por memórias secundárias e que hoje em dia se designam por memórias de massa. Contudo, e à semelhança da máquina simbólica de Turing, a máquina de von Neumann opera por estados discretos. Trata-se de uma máquina que passa de um estado a outro estado, isto é, que executa uma instrução e a seguir outra, sem que haja continuidade entre um estado e o próximo.  Por outro lado, é importante notar  que no modelo de Neumann as máquinas lógicas, os programas, são independentes, dentro de certas limitações, das máquinas tangíveis. Os computadores tornam-se, desta forma, máquinas para propósitos gerais, isto é, máquinas universais.

 §25     Hoje, "(...) todos os computadores, mesmo os microcomputadores, são máquinas universais. Podem, em princípio, efectuar todos os algoritmos e simular qualquer outra calculadora. Na prática, são evidentemente limitados pela sua velocidade de cálculo (medida em MIPS ou milhões de instruções por segundo) e a sua capacidade de memória.(...) Considerada como grande forma organizadora da dinâmica e dos produtos da arte (e engenho) ocidental (possui) três características essenciais: é uma potência de todos os possíveis (...) efectua um trabalho formal com signos (e) os símbolos elementares com os quais trabalha a máquina universal estão muito abaixo dos limiares de percepção imediatos" (idem).

 2.3       Conclusão: Homem de Turing

 §26     Referiu-se, atrás, a máquina universal como algo capaz de processar informação. A televisão, o telefone celular, o relógio de quartzo, as caixas automáticas para operações bancárias banalizaram a ideia de que uma máquina não é, necessariamente, um motor ruidoso, pesado, que produz bens tangíveis. Pode ser também um dispositivo que trata informação, seja qual for o seu formato: caracteres, padrões gráficos ou ondas sonoras. Por outro lado, desde o início dos anos 50, grande parte da população activa dos países ocidentais migrou para o sector terciário, de serviços, onde, justamente, se produz, trata e difunde informação. Viu-se, também, que em informática a máquina é tanto o dispositivo como  o algoritmo ou conjunto de algoritmos, ou seja, o dispositivo intangível designado por programa.  A máquina é um sistema.

 §27     Diz-se da tecnologia que suporta estes sistemas que é a tecnologia definidora do contemporâneo, do que é específico da actualidade. Uma tecnologia definidora desenvolve, sempre, ligações com a ciência, com a filosofia e com a arte. Disponibiliza-se como metáfora ou como modelo ideal e atrai e sistematiza ideias e conceitos anteriormente isolados ou díspares. De acordo com Bolter, a noção cartesiana do mundo como um mecanismo "(...) que se regia por leis matemáticas, era clara, acessível e, portanto, influente, já que os  seus contemporâneos viviam com relógios e engrenagens. (...) A tecnologia electrónica actual imprime  mais credibilidade a algumas tendências (actuais) em particular à (...) lógica matemática,  à linguística estrutural e à psicologia do comportamento" (Bolter, 1986). Separadas, estas disciplinas são certamente interessantes; tomadas em conjunto, integradas numa única matriz cultural, são, de facto, uma revisão do pensamento.

 §28     A Arquitectura não é certamente uma excepção nesta revisão geral do pensamento. A própria história da arquitectura não permite considerar como novidade que uma tal revisão concorra para alterar a forma como é pensada e projectada. É concerteza neste plano, no plano da revisão geral do pensamento, que deverá ser questionada a influência das Tecnologias de Informação no âmbito do território disciplinar da Arquitectura - no sentido em que Vittorio Gregotti, nos editoriais da Casabella, se refere a disciplina e a teritório. Quando a cidade é entendida e actuada como sistema, povoado de índices e números, quando a casa é percebida e projectada como mecanismo, literal e figurativo, quando, enfim, a noção de forma, princípio de configuração, passa a sinónimo de imagem e figura, o arquitecto passa, também, a ser o Homem de Turing, quer use ou não a máquina de Turing.

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Fernando Lisboa
Faculdade de Arquitectura, Universidade do Porto
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