Projecto
Colaborativo em Ambientes Digitais
(The
Lisbon Charrette)
(Ver. 18 de
Janeiro de 2000)
Fernando
Lisboa
Faculdade
de Arquitectura, Universidade do Porto
mailto:fernando@mail.kpnqwest.pt
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This is a
revised version of a text originally published as “Drawing Bits - Media
Technology and Architectural Representation” | “Desenhar no Digital:
Tecnologias de Mediatização e Representações de Arquitectura”, in The Lisbon
Charrette, ed. William Mitchell, João Bento, José Pinto Duarte, IST Press,
Lisboa, 1998. The changes from the original version are enough to make it
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§1 A
Lisbon Charrette desenvolveu um
cenário de trabalho colectivo, construído com video, audio e tecnologia
digital, dirigido para a produção de projectos de Arquitectura. Neste trabalho
colectivo o desenho, entendido como a representação de objectos ou conceitos
arquitectónicos através de uma linguagem de comunicação visual e um modo de
expressão gráfica, ocupou uma posição central. Construíu-se, portanto, um
ambiente digital complexo que favoreceu, na produção gráfico-visiva, as
capacidades comunicativas e de persuasão. Verificou-se, no decorrer da Lisbon Charrette, que os processos
cognitivos associados ao desenho parecem ser mais afectados pelas tecnologias
da intermediação e da representação do que pelas tecnologias do cálculo e do
processamento de dados. Mais afectados pelo paradigma da Realidade Virtual do
que pelo paradigma da Inteligência Artificial.
§2 A
Lisbon Charrette e, sobretudo, as
ideias subjacentes ao Design Studio of the
Future,
colocam o desenho de arquitectura no âmago da cultura digital. Até ao início da
década de oitenta esta cultura procurava elaborar modelos cognitivos baseados
em estruturas centralizadas e regras programadas. Para Sherry Turkle, "os
modelos actuais, ao invés, enquadram-se frequentemente numa estética
pós-moderna da complexidade e da descentralização".
Com efeito, as tecnologias digitais parecem propôr, hoje, uma ecologia das
imagens categorizada pela interactividade, pela conexão em rede e pelo hipermedia.
§3 A
disciplina do desenho tem sido, desde o início dos anos setenta, uma referência
importante para a Escola do Porto, tomada aqui não só como um conjunto de
autores e de obras, mas também como uma forma de encarar e exercer o ensino da
arquitectura. Na Escola do Porto, o desenho remete tanto para o domínio do
conhecimento analítico quanto para a consciência estética. Aquilo que, no plano
da verificação analítica se desenvolve como a ciência do desenho, ou seja, como
domínio dos suportes, materiais e
instrumentos de anotação gráfica, é desenvolvido como a arte do desenho no
plano do raciocínio abdutivo e da proposição estética. Enquanto factor de
desenvolvimento duma consciência estética, o desenho apresenta-se como
disciplina estruturante dado que configura a apreensão da realidade através de
processos sensoriais, valorizando os aspectos simbólicos e poéticos dessa
apreensão.
A motivação para o desenho não reside tanto
na articulação da resposta mas na articulação da pergunta. O desenho é, aqui,
nesta tensão entre dúvida e convicção, um processo de pesquisa e, ao mesmo
tempo, o produto dessa pesquisa. É esta colocação do desenho ao longo do
percurso que liga as imagens provisórias ao objecto definitivo que qualifica
uma metodologia de projecto que vem resistindo à sistematização e à
tipificação. Neste quadro, a
oposição entre a ciência e a arte do desenho não passa de uma oposição
funcional.
§4 A ideia do desenho como método de
conhecimento heurístico insere-se nas teorias tradicionais da Arte, nas
psicologias da percepção e nas teorias filosóficas da apreensão do mundo: a
percepção e, consequentemente, a construção do conhecimento é uma experiência
activa e positiva. A ideia do conhecimento como
experiência activa é elaborada, também, por Piaget, no campo da Psicologia, ou
por Gombrich, no campo da História da Arte, ou ainda, no campo da Filosofia,
pela semiótica fundada por Peirce. Segundo
Eco,
compreende-se “em que sentido,
como já tinham afirmado outros filósofos, o progresso sígnico se identifica com
o processo abstractivo do pensamento. Trata-se de escolher alguns aspectos
gerais da experiência e construir [um] modelo estenográfico”.
Compreende-se, também, a razão pela qual Gibson, que tanto influencia Gombrich,
considerou tão pertinente o conceito triádico de signo de Peirce, em particular o de signo icónico.
Gibson considerava que a percepção consistia numa construção mental baseada em
informação relevante adquirida pelo sistema de sentidos. No que respeita à
percepção visual, Gibson manteve que o olhar actuava não como um écran passivo
no qual as imagens do mundo externo seriam projectadas mas sim como um processo
activo de selecção – incluindo a locomoção do corpo e a movimentação da cabeça
e dos olhos -- de invariantes estruturais, a partir das quais o cérebro
construiria os percepta, e sugeriu que a cognição estabelece uma relação
triádica: “I have suggested [...] that a three way relation exists
between a precept, a stimulus invariant and its source”.
Gombrich defende que a visão e,
portanto, a representação mental do que é visto depende de hipóteses cognitivas
elaboradas pelos sistemas de percepção. Arnheim estabelece que a cognição é a
interacção entre o conhecimento perceptivo-intuitivo e o conhecimento
lógico-intelectivo . Para Peirce, o
juízo perceptivo corresponde mesmo a um modo de pensamento inferencial, em
particular à inferência abdutiva ou Abdução. Ainda segundo Eco, Peirce “deixa
claramente compreender que a percepção é um processo abdutivo” ou ainda que
“[…] para Peirce há também interpretação a nível da percepção”.
§5 Não
parece que existam diferenças importantes entre o desenho do que se vê e o
desenho do que se imagina, dado que em ambos os casos a produção gráfica
regista um perceptum mental, um juízo perceptivo.
O desenho, enquanto método artistico, evidencia a sua natureza triádica. O
desenho assume, sempre, num primeiro momento, a dupla qualidade de representação
e de compreensão: compreende-se para representar, representa-se para
compreender. Mas, também, representa-se e compreende-se para comunicar. São,
portanto, as noções de significação, de representação e de comunicação que
parecem estar no cerne dos problemas levantado pela tecnologia digital no campo
de desenho da arquitectura.
§6 Sabe-se
que é necessário e, por vezes, desejável, alargar a noção de desenho da
arquitectura à de representação arquitectónica. A fotografia, o video, a collage, mas também o fragmento, o
detalhe, a ruína que a memória reinterpreta e o desenho regista, constituem
modalidades de representação da arquitectura. O próprio trabalho sobre a ideia,
o conceito e a forma é elaborado através de esboços, esquemas, ilustrações,
desenhos técnicos, modelos e imagens de síntese. É o próprio corpus de conhecimentos, experiências e
referências definem o campo das linguagens de comunicação visual. No limite
desta perspectiva, o edifício constitui não só uma das representações possíveis
do projecto, mas, sobretudo, a representação desejável e, por isso, desejada,
porque total e integral. Contudo,
parece óbvio que o edifício, tomado como representação, contradiz o princípio
de economia da representação. O desenho estabelece uma equivalência parcial
entre as propriedades substantivas do objecto-referente em relação à
imagem-signo. Não faria sentido uma representação integral, que garantisse uma
identidade absoluta, mas onerosa, entre a coisa representada e a representação.
A correspondência é parcial porque o princípio e a função da representação
assentam, justamente, na economia de meios sígnicos. Para Massironi, o processo
representativo gráfico "[…] fica caracterizado pela dialéctica entre
enfatismo e exclusão. Efectivamente, em qualquer imagem são evidenciados alguns
traços, elementos ou características, de maneira a resultarem bem legíveis,
enquanto outros, pelo contrário, são completamente descurados, voluntariamente
ignorados, omitidos […]".
Gombrich efectua, a respeito da economia sígnica, uma análise coincidente:
"A facsimile duplication would not be classed as an image if it shared
with its prototype all characteristics including the material of which it is
made”.
§7 A
economia de meios sígnicos é garantida, no desenho de arquitectura, quer pelas
escalas de representação quer pela multiplicidade de representações. A redução
e a multiplicação organizam, em arquitectura, as regras de transposição entre a
imagem e o objecto. Contudo, é justamente esta fronteira entre objecto-referente e imagem-signo que o
desenho da arquitectura parece persistir em ultrapassar desde a reinvenção da
perspectiva no quatrocento italiano.
Neste âmbito, parece possível afirmar que o media
digital permite e determina, tendencialmente, formas de expressão concorrentes
com o media construção, ou seja, que
as construções digitais poderão vir a competir, no plano dos significados, com
as construções materiais.
§8 Um
mundo de desenho complexo, suportado por tecnologias digitais, mais motivado
para a simulação perfeita da relidade sensível do que para a simulação perfeita
da inteligência humana, constitui, para o desenho da arquitectura, um problema
perturbador. Antes de mais, porque as representações digitais parecem transformar
essa oposição operacional entre a
ciência e a arte de desenho numa oposição conceptual. A
ubiquidade do conceito de modelação computacional parece aproximar fortemente a
arquitectura das ciência positivas, quer no plano dos métodos de investigação
quer no plano dos processos de trabalho: a testabilidade das hipóteses e a
verificação dos resultados, a formalização rigorosa dos modelos geométricos e o
favorecimento de uma atitude estruturada e sistemática, são alguns aspectos
desta aproximação à cultura da Ciência. O desenho é, aqui, produto do
conhecimento lógico, motivado para o controlo da construção material e, no
limite, como suporte de decisão ou management.
Por outro lado, a ideia do computador como máquina semiótica, de intermediação
e comunicação, acentua, no desenho, os processos intersubjectivos,
indeterminados, difusos, negociados entre quem desenha e quem interpreta e,
simultaneamente, recentra a questão da relação entre as modalidades da
linguagem e os conteúdos do pensamento e esta é, também, uma questão da
estética. Mas também é um problema perturbador porque o facto de a experiência
histórica demonstrar que uma nova tecnologia é incapaz, por si mesma, de
produzir um Esprit Nouveau, não
constitui um sedativo adequado. Um mundo de desenho suportado por tecnologias
digitais perturba porque estimula a reflexão àcerca do papel desse desenho nos
processos cognitivos associados ao Projecto. Trata-se de saber o que é que,
hoje, no desenho intermediado pelo digital, se afirma como impacto - e,
portanto, como ruptura com anteriores modalidades de figuração da arquitectura
- e o que se confirma como sistematização - e, portanto, como continuidade de
tendências pré-existentes, suportadas anteriormente por mundos de desenho
tradicionais, dado que nada garante que processos aditivos e manipulações
múltiplas traduzam, necessáriamente, uma multiplicidade de experiências
significativas e inovadoras e que não constituam, pelo contrário, uma repetição
de padrões recorrentes.
§9 A
ecologia é o estudo da interacção entre seres vivos e o ambiente que habitam.
As tecnologias digitais constroem nichos ecológicos que favorecem ou
desencorajam determinados processos de inferência e determinadas linguagens de
comunicação. Na Lisbon Charrette, a máquina que calcula cedeu protagonismo à
máquina que representa e os raciocínios lógicos foram interferidos pelos
dispositivos de intermediação. O
conjunto de produções gráficas, executadas neste meio-ambiente, efectuou uma
aproximação ao conceito de instalação interactiva, capaz , por um lado, de
transmitir a multiplicidade de experiências e intenções dos que a produzem e,
por outro lado, de suportar a multiplicidade de leituras e contribuições dos
que a recepcionam.
§10 Sabe-se
muito pouco àcerca da relação entre as linguagens de comunicação visual e os
conteúdos do pensamento arquitectónico e sabe-se ainda menos àcerca da variação
desta relação ao longo do tempo histórico. Sabe-se, contudo, que entre as
imagens que querem ser objectos e os objectos que se propôem como imagens,
apenas alguns se transformaram em marcos da história do desenho de
arquitectura: aqueles que reconfiguraram os modos de olhar e de dar a olhar,
que subverteram as convenções da anotação e da expressão gráfica e que
reorganizaram os sistemas da percepção. A este respeito, considere-se, por
exemplo, as gravuras de Cesariano e Palladio para os Libri Decem, as
fantasias de Piranesi e de Boullée, as ilustrações de Durand para a sua Partie
Graphic e as de Viollet-le-Duc para o seu Dictionnaire, ou as axonometrias de Choisy para a sua Histoire e, mais tarde, as que Van
Doesburg e Van Eesteren expuseram na galeria de L'Éffort Moderne, em Paris. Da
mesma forma, as representações digitais de arquitectura poderão eventualmente
corresponder a uma nova objectividade do pensamento e da cultura
arquitectónicas. Mas para isso precisam de demonstrar ser capazes de gerar
"suficientes objectos culturais discretos de modo a marcar os discursos da
crítica e da história da arte",
isto é, na medida em que sejam elaboradas e cumpridas como objectos estéticos.
Nestas representações, a imagem e o objecto coincidem quase. Só não coincidirão completamente
na medida em que os signos e os códigos se apresentem como tais, isto é, na
medida em que os processos de produção e fruição dos objectos não se confundam
com os processos de produção e fruição das suas imagens.
(Ver. 18 de
Janeiro de 2000)
Fernando
Lisboa
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de Arquitectura, Universidade do Porto
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