Arquitectura
e Internet
(Ver.
15 de Novembro de 2000)
Fernando
Lisboa
Faculdade
de Arquitectura, Universidade do Porto
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1
Introdução
§1 O significado das tecnologias digitais
balança entre as teses de revolução e as teses de continuidade. Procura-se
determinar até que ponto a actualidade é marcada pela emergência de novos
paradigmas, dependentes da novidade tecnológica ou se, pelo contrário, os
paradigmas actuais mais não são que a revisão de sistemas de ideias pré-existentes.
Esta oposição entre revolução e continuidade não se restringe a um debate de
âmbito académico: reflecte outros debates, mais alargados, àcerca das relações
que a sociedade e a cultura actuais mantém com a História e afecta
profundamente a forma como as pessoas projectam as suas crenças e expectativas
nas tecnologias que as rodeiam. A arquitectura não é indiferente a estes
debates. Enquanto disciplina artística, ela depende de técnicas materiais e
intelectuais. Por isso, é, foi sempre, permeável à influência de tecnologias
externas. A progressiva ubiquidade das redes globais de computadores
justificam, portanto, a oportunidade de problematizar os objectos da
arquitectura: o desenho, o projecto e a construção material.
2
Comunicação e Intermediação
§2 A hipótese de uma alteração importante
no campo disciplinar da arquitectura subentende, necessariamente, a hipótese de
uma alteração, igualmente importante, nos campos da sociedade e da cultura.
Sendo assim, a avaliação crítica dos modos de produção de arquitectura, no
quadro das redes globais de computadores, não dispensa a contribuição da
História dessa sociedade e dessa cultura. Caso contrário, a cisão entre crítica
e história e a correspondente visão de uma actualidade a-temporal, poderia
acarretar uma valorização excessiva de mitologias transitórias e
circunstanciais.
§3 Beniger, ao contrário de, por exemplo,
Toffler, valoriza as teses de continuidade em detrimento das teses de
revolução: a inovação tecnológica, nos campos da informação e comunicação, é
interpretada não como causa, mas como consequência de mudanças sociais
relevantes, cuja origem pode ser detectada no sistema de ideias que organizaram
os projectos da Ilustração e, mais tarde, do Positivismo .
As tecnologias de "controle e comunicação", tal como foram
enunciadas, na década de 50, pela cibernética, representam "o início da
restauração do controle económico e político […] que se tinha perdido, em
muitos níveis da sociedade, durante a Revolução Industrial" .
A Revolução Industrial provocou, como se sabe, uma descontinuidade tecnológica
que destruíria, a prazo, as sociedades agrícolas e o Ancien Régime. Desta descontinuidade resultaram sistemas sociais e
empresariais maiores e mais complexos e, sobretudo, mais diferenciados e,
portanto, interdependentes. Surgem os
mercados segmentados, ou seja, espaços de transação cultural e comercial nos
quais a relação entre produtores e consumidores, outrora directa, local,
imediata, passa a relação indirecta, tendencialmente global, mediata e,
portanto, intermediada. A segmentação dos mercados configura a sociedade de
serviços, visto que implica tanto o controle das condições de emissão e
recepção de informação, como a avaliação dos correspondentes efeitos de
retorno. Nesta perspectiva, a da História, não só é possível como necessário
colocar as tecnologias digitais no quadro da resposta, contínua e sustentada, a
uma crise geral de controle das sociedades e das organizações, provocada pelo
impacto do projecto da Ilustração e, mais tarde, pela Revolução Industrial. Se,
inicialmente, essa resposta foi assegurada por uma infra-estrutura
tecno-cultural que poderia designar-se como a ideologia da Comunicação, mais
tarde, após o aparecimento e a disseminação dos computadores electrónicos, a
resposta passou a ser assegurada pela ideologia da Intermediação.
2.1
A ideologia da Comunicação
§4 Claude Henry de Saint-Simon construiu,
entre 1814 e 1825, uma das sínteses mais notáveis do projecto da Ilustração.
Ele conjuga as ciências da observação - da histologia de Xavier Bichat à física
dos corpos em movimento de Jean Offroy de la Mettrie - com as ciências da organização dos engenheiros das Ponts et
Chaussés, herdeiros de Vauban. Saint-Simon concebe uma fisiologia social que
enquadra as suas “ideias para a construção do sistema social “, gravemente
danificado pelo impacto da industrialização .
Esta fisiologia social, entendida como ciência positiva, compara a sociedade a
um organismo, formado por um tecido de comunicações e de transações. Esta comparação
não é nova. Com efeito, Diderot, na sua Enciclopédia, cujo 1º volume é
publicado em 1744, define o sistema como “a disposição das diferentes partes de
uma arte ou de uma ciência num estado em que todas se apoiam mútuamente e em
que as últimas se apoiam pelas primeiras. […] Do mesmo modo que num relógio
existe um dispositivo principal de que dependem todos os outros, também há, em
todos os sistemas, um primeiro princípio ao qual se subordinam todas as
diferentes partes que o compôem”. Do ponto de vista de Diderot, o conceito de
sistema, que subentende organização, complexidade e auto-regulação, é
aplicável, indiferentemente, aos autómatos, aos seres vivos e às organizações
sociais humanas. O analogon
setecentista consiste, precisamente, na ambivalência entre a metaforização da
máquina pela vida e a metaforização da vida pela máquina. As organizações
sociais - a Sociedade Civil, o Estado, o Exército, o Hospital, a Prisão, a
Escola, a Empresa - são pensadas, já a partir de meados do século XVIII, como sistemas
suportados por infra-estruturas de comunicação. Também para Saint-Simon, a
coerência interna e capacidade de auto-regulação do Estado e da Sociedade são
asseguradas pela ideia de rede e pela ideologia da Comunicação. A circulação de
bens, de pessoas e de recursos financeiros, oferecida pelo vapor e pela
electricidade, apresenta-se como fundamental para obstar a uma sociedade
descontinuada e desarticulada, composta por um aglomerado de indivíduos
isolados ou, dir-se-ia hoje, desligados .
Os seus discípulos - Auguste Comte e Charles Fourier, entre outros - retiram da
sua obra “um discurso sobre as virtudes redentoras das novas técnicas e [...]
uma estratégia de transição para a era positiva através das redes de
comunicação e das redes de finança” .
§5 Hoje, o analogon vida-máquina parece tão obsidiante, enquanto matriz
cultural e paradigma unificador, quanto o foi para o projecto da Ilustração de
Diderot e para os primórdios da utopia socialista e positivista de Saint-Simon.
Este último, tanto quanto Charles Darwin, está ligado de forma indissociável à
génese das ideias do desenvolvimento, da evolução histórica e do progresso
linear. O seu projecto para uma Confederação Europeia foi retomado e refinado
por MacLuhan com a sua Aldeia Global, por Tofler com a sua Terceira Vaga e por
George Gilder com as suas auto-estradas de informação.
2.2
A Ideologia da Intermediação
§6 Apesar da continuidade entre os
projectos da Ilustração, no século XVIII, e do Positivismo, no século XIX, e
apesar da forma como estes projectos invadem o século XX e a ideia de
modernidade, é possível identificar, hoje, rupturas importantes entre as
propostas de Saint-Simon e as de MacLuhan. No século XIX, a ideologia da
Comunicação remete para a necessidade de um esquema preciso de reorganização da
nova sociedade industrial. Actualmente, o ênfase colocado nas redes globais de
computadores parece corresponder a uma percepção clara àcerca da capacidade
limitada do Homem para compreender e transformar o Mundo que o cerca e da
correspondente necessidade de estabelecer solidariedades intra-pessoais. Duma
forma geral, a ambição de verdade é substituída pela de consenso e aceita-se a
impossibilidade de proposições objectivas, mesmo no campo das ciências ditas
duras. A confirmar este movimento geral da cultura, está o triunfo dos
pós-estruturalismos, das semiologias e das hermenêuticas. O mundo parece menos
perfectível do que parecia, então, a Saint-Simon, e a realidade, intuída como
construção social, afigura-se como uma daquelas obras abertas, tão caras às
vanguardas artísticas dos anos setenta, efémeras, inquietantes e, por vezes,
ameaçadoras .
§7 O tráfego de informação é hoje
assegurado pelas tele-comunicaçõs e pelas redes globais de computadores, integradas,
progressivamente, num todo digital. A ideologia da Comunicação parece ceder
lugar à ideologia da Intermediação e o computador, dada a sua capacidade para a
interactividade e para a conexão, aparece como o suporte adequado para lidar
com uma Realidade despojada de qualquer objectividade intrínseca, uma Realidade
irreconhecível e, potencialmente, descontrolada. As redes globais correspondem,
precisamente, à visão de um mundo do qual não se pode já extraír uma razão mas,
tão-sómente, uma cartografia ou seja, uma representação. O computador passa a
ser máquina semiótica - os significantes digitais confundem-se e cruzam-se com
as suas significações.
3
Sítios e sites
§8 Em 1982, na Califórnia, Edward Nelson e
John Walker conceberam o projecto Xanadu, o qual viria a ter uma enorme
influência no desenvolvimento e na estrutura das redes globais de computadores.
O termo Xanadu evoca “Kublai Khan”, o poema no qual Coleridge descreve o
palácio do imperador mongol, e, obviamente, o filme de Orson Wells e o imenso
palácio de Citizen Kane. Porém,
apesar das evocações, o projecto Xanadu foi pensado como um palácio mas sim
como uma biblioteca digital, tendencialmente infinita, a que todas as pessoas
poderiam recorrer, para, eventualmente, consultar, publicar e trocar
conhecimento. Uma ideia generosa que, cerca de dez anos mais tarde, viria a
concretizar-se, parcialmente, na Internet e, em especial, na wwweb.
§9 O projecto de Nelson e Walker
proporciona analogias interessantes e instrutivas com alguns dos temas mais
caros à Arquitectura. Por um lado, é análogo ao conceito de centro que, na
cidade grega, era agora e na cidade
romana era forum - lugares de
discurso e de confronto políticos, mediados pela lógica, pela dialéctica e pela
retórica. Por outro lado, é análogo ao conceito de labirinto, que recorda outro
palácio, o de Knossos, e que se associa às malhas urbanas da cidade árabe e da
sua casbah: sítios complexos,
descentralizados, sem hierarquias dominantes, com múltiplas inter-ligações e
portanto com possibilidades inesperadas de encontros e desencontros. O conceito
de labirinto associa-se, também, à complexidade e à extensão das cidades
actuais que são, frequentemente, comparadas com a complexidade e a extensão da
Web - William Mitchell designa-a como a cidade de bits - e a correspondente dificuldade,
proporcional à ausência de centros, em estabelecer um mapa mental quer das
estruturas urbanas, quer das estruturas da www. Note-se, a este respeito, que
se a Internet aparece como um analogon da cidade e tão contraditória como esta,
a cidade, por sua vez, oferece metáforas atraentes e disponíveis para a
construção de alguns dispositivos essenciais ao manuseamento e ao controle das
redes globais de compitadores: entre outros, as interfaces gráficas. Tal como
na cidade abstracta e codificada, a visualização de informação em ambientes com
um elevado grau de abstração e codificação depende fortemente dos sistemas
perceptivos do ser humano. É natural, portanto, que muitas das propostas para a
visualização tridimensional de informação se apoiem em metáforas do mundo
construído e se estruturem de acordo com o tipo de mapas cognitivos propostos,
por exemplo, por Kevin Lynch, no seu "The Image of the City". Neste
texto básico da arquitectura contemporânea, Lynch argumenta que a clareza
perceptiva do território urbano é aferida pela facilidade com que os seus
habitantes constroem os respectivos mapas cognitivos .
§10 Do mesmo modo, o design de estruturas de dados, ou seja, a visualização espacial de
modelos de dados, oferece-se como recurso e propôe-se como metáfora para a
arquitectura. A analogia não é nova, dado que o território disciplinar, embora
com fronteiras bem definidas, não foi nunca impermeável à influência de
tecnologias externas. No séc. XIX, a arquitectura do ferro é induzida pelas
formas e pela expressividade plástica das novas máquinas e das novas
infraestruturas de comunicação .
A arquitectura funcionalista do Movimento Moderno, na década de 20, estabelece
uma aproximação aos métodos e processos do design
industrial . Na década
de 60, as Cidades Instantâneas do grupo Archigram e, de uma forma geral, a avant-garde britânica, procuram integrar
os conceitos de automação, miniaturização e mobilidade no quadro de uma
estética Pop . Hoje, face
a uma arquitectura cujo desenho é intermediado por draft-processors, sugere-se, por vezes, que o projecto
arquitectónico é um modelo de dados complexo – um artefacto informacional .
§11 Contudo, a analogia mais interessante
entre a Internet e a Arquitectura é a que relaciona os sites da Web com o conceito de Sítio. Este conceito é, por si
mesmo, um dos temas centrais da teoria de arquitectura. O sítio concreto,
embora ligado a outros sítios, para o ser, terá de apresentar-se, de algum
modo, como único e singular por forma a
permitir um reconhecimento e uma apropriação específicas. Pressupõe, portanto,
um trabalho de composição, caracterização e qualificação - um trabalho de
desenho, de projecto e de construção. Esse trabalho é, precisamente, o trabalho
da Arquitectura. Estabelecer uma relação conceptual entre os sítios da
arquitectura e as arquitecturas da rede passa por considerar, sucessivamente, a
arquitectura como desenho, a arquitectura como projecto e a arquitectura como
construção e procurar, em seguida, identificar aqueles aspectos em que a rede,
que é centro, labirinto e sítio, problematiza o desenho, propõe alternativas ao
projecto e transforma a construção material das casas e das cidades.
4
Arquitectura
§12 Até meados da década de oitenta, a
cultura digital procurava elaborar modelos cognitivos baseados em estruturas
centralizadas e regras programadas. Contudo, os modelos actuais de computação e
a própria cultura digital "enquadram-se […] numa estética pós-moderna da
complexidade e da descentralização" .
Os sistemas lineares "deram lugar a uma interação sobretudo lúdica com
sistemas não lineares, linguagens estratificadas, navegação de significados,
intuição crescente e autocriação" .
A calculadora electrónica cede lugar à agora
e ao casbah digitais. Estes sistemas
não-lineares estabelecem uma ruptura importante com as ideias convencionais
ácerca da Arte e da Técnica, herdeiras do projecto da Ilustração e do
Positivismo - à ideia de tecnologia, tomada como extensão das capacidades e
competências do ser humano, substitui-se a ideia de tecnologia tomada como
ambiente ou habitat, construído por
sistemas de signos e suportado por dispositivos transparentes, silenciosos,
intangíveis.
§13 No interior da relação entre o homem e o
mundo, a tecnologia, qualquer tecnologia, infiltra-se como o terceiro
protagonista, intermediando os três domínios daquela relação: o da acção, o da
observação e o da comunicação. A representação gráfica parece constituir o
cerne da ideologia da Intermediação visto que aquela intermediação é, hoje,
efectuada através de representações digitais, que se apresentam, sobretudo,
como grafismos, como imagens e como figurações. Para a cultura e para a prática
artísticas, esta noção, a de representação gráfica, remete para o problema da
natureza das linguagens de comunicação visual. Desta forma, no campo particular
da teoria de arquitectura, discute-se a correlação entre a forma e a substância
do desenho, pertencentes ao plano da Expressão, e a forma e a substância do
objecto construído, pertencentes ao plano do Conteúdo .
Esta discussão é, naturalmente, reorganizada pelas tecnologias de
Intermediação.
§14 Existe, na representação gráfica, uma
ambivalência entre aquilo que a imagem é e aquilo que a imagem quer parecer
ser. Na relação difícil entre as imagens que querem ser objectos e os objectos
que se propôem como imagens, as tecnologias de intermediação interferem nos
processos de produção e reprodução dos objectos e das imagens de arquitectura -
as do desenho, as do projecto e as da construção material. Por outras palavras,
questionam e recentram o papel da representação no interior da cultura e da
prática arquitectónicas.
4.1
(…) como Desenho ou a Ecologia das Imagens
§15 O desenho de arquitectura pode ser
entendido como a representação de objectos ou conceitos arquitectónicos através
de uma linguagem de comunicação visual e um modo de expressão gráfica, dos
quais resultam imagens ou conjuntos de imagens bidimensionais. Este desenho remete
tanto para o domínio do conhecimento empírico quanto para o domínio do
conhecimento artístico. O desenho, que no plano da verificação e da
interpretação analíticas se desenvolve como Técnica, ou seja, como domínio dos
suportes, materiais e instrumentos de
anotação, é desenvolvido como Arte no plano da proposição intuitiva, do
enunciado poético e da apreensão estética da realidade. O computador, enquanto máquina semiótica,
acentua, no desenho, a variedade e a sobreposição de técnicas de representação,
de modos de comunicação e de métodos de conhecimento. Isto quer dizer que o
ambiente digital, tomado como canal ou media,
interfere na estrutura semântica do desenho visto que altera as modalidades de
anotação e expressão gráfica e favorece aqueles aspectos provenientes da
atenção à retórica e à argumentação.
§16 Esta atenção ao desenho está
estreitamente ligada à emergência de novos quadros conceptuais, no início dos
anos sessenta, decorrentes de mudanças importantes no campo disciplinar da
arquitectura. Com efeito, o debate então iniciado, que se prolonga até hoje, a
propósito da superação da linguagem do Modernismo restrito, irá privilegiar o
desenho não só como estratégia de expressão e comunicação de proposições
críticas e de modelos arquitectónicos mas também como forma de demonstração e
persuasão dessas proposições e desses modelos. Também aqui, a apropriação de
tecnologias inovadoras apresenta-se como a consequência de alterações culturais
importantes.
§17 A ausência de habitats digitais no interior dos quais as imagens desenhadas
pudessem encontrar um ambiente favorável para a sua sobrevivência e autonomia,
condicionou a produção do desenho às características do ambiente analógico ou
seja, aos suportes, materiais e instrumentos tangíveis e contínuos - a
impressora e o plotter. As redes
globais de computadores alteram esta condição e permitem, portanto, estabelecer
a seguinte hipótese de trabalho: que o eco-sistema digital e as imagens de
arquitectura que o habitam poderão estimular uma nova objectividade do
pensamento e da cultura arquitectónica se demonstrarem ser capazes de gerar
objectos culturais que condicionem os discursos da crítica e as práticas do
projecto . Outras
imagens, noutros habitats, tomadas por si mesmas, reconfiguraram os
modos de olhar e de dar a olhar, alterando a percepção e, logo, a natureza da realidade.
Veja-se, a título de exemplo, as gravuras de Fra Giocondo, de Cesariano e
Palladio para os Libri Decem de
Vitruvio, em Itália, no século da Renascença, e as fantasias de Legeay, Boullée
e Ledoux, em França, no século das Luzes.
4.2
(…) como Projecto ou a Superação da Representação
§18 A distinção entre desenho e projecto é a
distinção entre a realização de uma atitude e a realização de uma vontade. O
desenho é uma atitude de indagação e pesquisa; o projecto é vontade de intervir
e transformar uma determinada realidade física e cultural. Sabe-se que a
representação implica que um determinado objecto ou acontecimento seja tomado
como substituto de outro objecto ou acontecimento. Diz-se dos primeiros que
representam os segundos. Que os significam. Quer isto dizer que o que é próprio
da representação é o recurso a um sistema de signos. No limite desta
perspectiva, a construção material constitui não só uma das possibilidades de
representação dos conteúdos do projecto, mas, sobretudo, a representação
desejável e, por isso, desejada, porque inteira e completa. Contudo, a
construção concreta contradiz o princípio de economia da representação, dado
que aspira à integralidade. A representação integral, a que garante uma
identidade absoluta entre a representação e a coisa representada, não parece
fazer sentido. A correspondência é parcial porque o princípio e a função da
representação assentam, justamente, na
economia de meios sígnicos.
§19 No projecto, recorre-se a dispositivos de
economia sígnica como a escala, a enfatização e a abstração. É aqui, com o
auxílio destes dispositivos, que se traça a fronteira entre projecto e
construção ou seja, entre a vontade que antecipa a intervenção e o objecto
material que a concretiza. É justamente esta fronteira que as tecnologias de
intermediação colocam em causa - porque
ambicionam, tanto quanto prometem, a integralidade representativa e funcional. As representações
digitais de arquitectura, em particular aquelas que assumem o carácter de
instalação interactiva, conectada em rede, podem ser entendidas como
construções visitáveis e habitáveis. Esta habitabilidade é confirmada pela cenografia, ainda
experimental e, por isso, incipiente, de alguns Ambientes Virtuais dotados de tecnologias multicasting. É possível, portanto, estabelecer a seguinte hipótese
de trabalho: que o media digital
permite, tendencialmente, formas de expressão concorrentes com o media construção e que a representação
digital conspira com a construção material na medida em que é, também,
intervenção e transformação de um habitat.
Se assim for, torna-se imprescindível saber como efectuar essas construções
digitais, como habitá-las e como qualificá-las, saber que confrontos
estabelecem com as construções materiais e determinar em que medida estabelecem
não só novos quadros conceptuais para a teoria arquitectónica, mas também novos
campos de intervenção para o trabalho da arquitectura.
4.3
(…) como Cidade ou a Vida Re-Configurada
§20 A Revolução Industrial segmentou os
mercados e favoreceu a especialização da oferta e da procura. Contudo, os
efeitos da segmentação e da especialização não se restringiram ao mercado:
afectaram, também, os sítios concretos da transação e da interacção, ou seja,
as casas e as cidades. O conceito de zonamento resulta da segmentação do
ambiente edificado - os lugares da casa e da cidade diferenciam-se e, en passant, especializam-se. Os efeitos
do zonamento são particularmente visíveis na importância crucial das
infra-estruturas de comunicação e de acessibilidades que, hoje, determinam a
forma da cidade e as estratégias de crescimento urbano.
§21 A cidade pré-industrial, cuja origem
remonta à alta Idade Média, é caracterizada por um sofisticado equilíbrio e por
uma eficaz integração de espaços, formas e funções diferenciadas. Este modelo
permaneceu ao longo da primeira metade do século XIX, apesar das transformações
induzidas pela industrialização - a habitação dos operários associa-se às
fábricas e complexos industriais, localizados no centro das cidades. Contudo, a
persistência de formas urbanas pré-industriais, desajustadas a novos padrões
sociais, conduziu, frequentemente, a desastres sócio-ambientais. Engels, em
1845, retrata as condições de sub-vida do proletariado urbano, uma classe
social que o Ancien Régime não tinha
conhecido .
§22 A crise de 1848 viria, no entanto, a
provocar uma clivagem no pensamento urbanístico. A utopia de Saint-Simon e as
propostas de Fourier tinham procurado uma alternativa ao desastre, contrapondo
modos de vida e formas urbanas baseadas em totalidades político-ideológicas.
Todavia, na segunda metade do século XIX, o projecto de cidade
neo-conservadora, habitada por Napoleão III, por Bismark e por Disraeli, é um
projecto reformista, na medida em que procura actuar sobre a cidade material e
respectivas infra-estruturas técnicas, ignorando, por vezes reprimindo, a
cidade política e os espaços de cidadania .
Veja-se, a título de exemplo, os grand
travaux do comissário Haussman em Paris (a partir de 1853) e o projecto
para a ampliação de Barcelona, pelo engenheiro Cerdá (a partir de 1859).
§23 O Movimento Moderno, na década de 20,
confrontado com o problema da cidade, propõe uma morfologia urbana
hiper-segmentada e uma cidadania hiper-especializada. A reorganização do espaço
corresponde, ainda que parcialmente, ao analogon
setecentista - tanto a casa como a cidade são pensadas como uma machine à habiter , ou seja, como
estruturas precisas, rigorosas,
determinadas pela funcionalidade .
Na cidade, em particular, distinguem-se os centros, os subúrbios e as
periferias, planeiam-se zonas de trabalho, de habitação e de consumo,
desenham-se sistemas de comunicação ferroviária e rodovária e as relações entre
casa, bairro e cidade são pensadas não como justaposições mas como
articulações. Os arquitectos do Movimento Moderno conceberam as suas propostas
para uma sociedade industrial. Hoje, a indústria é secundarizada pelo
terciário. Os serviços ocupam a maioria da população activa e consistem, cada
vez mais, no tratamento de informação abstracta e de bens intangíveis. Neste
quadro, as redes globais de computadores oferecem uma alternativa ao projecto
da cidade moderna, na exacta medida e no exacto tempo em que, como se viu,
modelos cognitivos baseados em estruturas centralizadas e hierárquicas cedem lugar
a modelos cognitivos, baseados na descentralização e na heterogeneidade.
§24 Se se admitir que as relações entre os
espaços de habitação, de trabalho e de consumo determinam, também, a forma da
cidade, então é possível estabelecer a seguinte hipótese de trabalho: que
tecnologias mais eficazes para a transferência de dados multimedia e a melhoria
da integração entre computadores e tele-comunicações poderão alterar os
conceitos de trabalho, habitação e consumo, contrariar a tendência para a
especialização e para o zonamento e, consequentemente, reorganizar as casas e
as cidades .
Esta re-organização parece apresentar-se, sobretudo, como a oportunidade de
reconciliar a polis com a civis, resgatando o problema da cidade
da esfera do tecnicismo para o recolocar na esfera da política.
5
Conclusão
§25 A avaliação dos modos de produção de
arquitectura, face às redes globais de computadores, é enquadrada pela história
da cultura e da teoria arquitectónicas. Se, por um lado, o digital pertence a
uma resposta continuada à crise de controle das sociedades e das organizações,
por outro lado, estabelece uma ruptura importante com as ideias convencionais
ácerca da Técnica e da Tecnologia - substitui a ideia de máquina pela ideia de
ambiente, construído por sistemas de signos. O habitat digital, categorizado pela interactividade, conexão em rede
e convergência de medias, constitui, para a arquitectura e para os seus
objectos, o Desenho, o Projecto e a Construção, um problema perturbador. Ao
Desenho, altera-lhe as modalidades de anotação, expressão e comunicação
gráfica. Ao Projecto, acentua-lhe aqueles aspectos provenientes da atenção à
retórica e à argumentação. À Construção material, altera-lhe as relações e as
rotinas associadas ao trabalho, à habitação e ao consumo e, consequentemente,
surge como factor de reorganização dos cenários de transacção social - a casa e
a cidade.
§26 As janelas dos Graphic User's Interface são, simultaneamente, uma representação do
computador, das redes em que o computador se integra e das coisas do Mundo com
as quais a rede e os seus habitantes efectuam interacções. Tal como os seres
vivos interagem com os eco-sistemas físicos, também as imagens e os objectos
interagem com os eco-sistemas tecno-culturais. A mutação do habitat oferece oportunidades e riscos
para as espécies que o habitam. Um habitat
complexo, suportado por tecnologias digitais e caracterizado pela
interactividade, pela conexão em rede e pela sobreposição de medias, constitui, para o desenho, para
o projecto e para a construção da arquitectura um problema e um desafio. O
facto de a experiência histórica demonstrar que "um novo instrumento não
leva automáticamente a uma nova criatividade ou às energias ou fantasias
adequadas para o aproveitar"
não parece, portanto, constituir um sedativo adequado.
(Ver.
15 de Novembro de 2000)
Fernando
Lisboa
Faculdade
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