A Semiótica de Charles Sanders Peirce: Ensaio Preliminar
Outline on C S Peirce Semiotics
(Ver. 08 de Dezembro de 2001)
Fernando Lisboa
Faculdade de Arquitectura, Universidade do Porto
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been in progress for some months. I make it available on-line for purposes of critical feedback and comments. I am fully aware
it contains errors and omissions so any reference or quotation must have my
explicit permission. Thank you.
1 Introdução 1.1–2
1.1 Notas Prévias 1.1–2
1.2 Desenho e Mediação 1.2–3
1.3 A Semiologia 1.3–4
1.4 A Semiótica de Peirce 1.4–5
1.4.1 A
Semiótica como Lógica 1.4–6
1.4.2 A
Semiótica como Filosofia da Linguagem 1.4–6
1.4.3 A
Semiótica como Filosofia do Pensamento 1.4–7
1.4.4 A
Semiótica como Pragmatismo 1.4–7
1.4.5 A
Relação de Representação 1.4–7
1.4.5.1 O Signo 1.4–7
1.4.5.2 O Interpretante 1.4–10
1.4.5.3 O Objecto 1.4–11
2 O Dialogismo 1.4–13
2.1.1 O Modelo de Conversação Oral 1.4–13
2.1.2 Tom,
Instância e Tipo 1.4–13
2.1.3 O
Pensamento como Diálogo 1.4–14
2.1.3.1 Consequências 1.4–14
3 A Teoria das Categorias 1.4–15
3.1.1 Unidade
e Multiplicidade 1.4–16
3.1.2 Realismo,
Conceptualismo, Nominalismo 1.4–16
3.1.3 As
Três Categorias da Realidade 1.4–17
3.1.3.1 Modos de Ser e Modalidades de Relação 1.4–17
3.1.3.2 Relação Monádica, Diádica e Triádica 1.4–18
3.1.3.3 Possibilidade, Existência e Mediação 1.4–18
3.1.4 Discriminação,
Dissociação e Prescisão 1.4–20
3.1.5 A
Categoria Semiótica 1.4–20
3.1.6 Conclusão 1.4–21
4 A Teoria Formal dos
Signos 1.4–21
5 A Teoria Pragmática dos
Signos 1.4–21
6 Significação e
Inferência 1.4–22
6.1.1 Pensamento
Inferencial 1.4–23
6.1.2 Abdução,
Dedução e Indução 1.4–23
6.1.2.1 Inferência e Silogismo 1.4–23
6.1.2.2 A Indução e a Dedução
Empíricas 1.4–24
6.1.2.3 ascenso e descenso 1.4–24
6.1.3 A-letheia 1.4–25
6.1.3.1 Percepção 1.4–25
7 A Classificação das
Ciências 1.4–25
8 A Semiótica Comparada 1.4–27
8.1.1 Peirce
e os Latinos 1.4–27
8.1.2 Peirce
e os Modernos 1.4–27
8.1.3 Peirce
e Frege 1.4–27
8.1.4 Peirce
e Saussurre / Hjelmslev 1.4–27
8.1.5 Peirce
e Morris 1.4–27
9 Pragmatismo e Projecto 1.4–27
9.1.1 Realidade
e Conhecimento 1.4–27
9.1.2 O
Pragmatismo como Filosofia de Projecto 1.4–28
9.1.3 Conclusão 1.4–28
É possível demonstrar, recorrendo à
História e à Teoria da Arquitectura, que o desenho do projecto de Arquitectura
pode ser tomado como um sistema de signos autónomo do da arquitectura material,
ou seja, que é possível estabelecer uma distinção entre os códigos de
construção e leitura do objecto arquitectónico e os códigos de elaboração e
leitura do respectivo projecto, que, em suma, o Projecto desenhado é uma
semiótica autónoma e não uma semia substitutiva.
Uma vez que se pretende contribuir para a
construção de uma teoria do projecto arquitectónico, na qual o desenho ocupe um
lugar central, importa justificar a metodologia adoptada, ou seja, a
consideração desse desenho sob uma perspectiva semiótica, que dê conta dos
processos e das noções de Significação, Representação e Comunicação. Importa,
portanto, justificar a importação da teoria semiótica de C S Peirce. Portanto:
porquê invocar a Semiótica de Peirce a propósito duma eventual teoria do
desenho de projecto?
Note-se, antes de mais, que Desenho é
aqui tomado como produção gráfico-visual, que representa, compreende e comunica.
Como um efectivo método de conhecimento.
Note-se, ainda, que este texto estabelece
diferenças importantes entre quatro termos, a saber: Semiótica, Semiose,
semiótica ou semióticas e Semiologia. Entende-se a Semiótica como a teoria geral
dos signos ou da Semiose, fundada e desenvolvida por C. S. Peirce entre 1867 e
1914 .
No interior desta teoria, entende-se a Semiose como a acção dos signos, isto é,
o funcionamento e a operação dos signos, a interpretação de um signo e, também,
a inferência a partir dos signos. Por sua vez, entende-se que a semiótica ou
semióticas descrevem, organizam e explicam os vários sistemas de interpretação
que são os sistemas específicos de signos; é neste sentido que se fala de uma
semiótica da Arquitectura ou de uma semiótica do Desenho; é também neste
sentido que se pode tomar a Semiótica como uma reflexão acerca da possibilidade
das semióticas e estas como uma reflexão acerca da aplicabilidade da Semiótica.
Por fim, entende-se a Semiologia (cf. § 1.3) como uma translinguística que estuda os sistemas de
signos reportando-os à linguagem verbal ou, se se quiser, à ciência linguítica
tal como foi proposta por Saussurre (CLG, 1916) e desenvolvida, posteriormente,
por Hjelmslev (Prolegomena to a Theory of Language,1943) Buyssens (Les
Languages et le discours, 1943) e Barthes (Eléments de sémiologie, 1964)
Considera-se, geralmente, que o
desenvolvimento da teoria geral dos signos assenta em três artigos publicados
entre 1868 e 1869 no Journal of Speculative Philosophy, a saber: “Questions
Concerning Certain Faculties Claimed for Man” (CP 5.213-263), “Some
Consequences of Four Incapacities Claimed For Man”, (CP 5.289) e o “Grounds of
Validity of the Laws of Logic: Further Consequences of Four Incapacities” (cf.
Fisch, 1986; 324-325).
A aplicação da teoria geral dos signos de
Peirce a uma eventual semiótica do desenho de Projecto releva de uma
característica geral dessa mesma Semiótica que poderia ser designada por efabilidade.
Com efeito, a Semiótica peirceana possui a capacidade para descever e explicar
aqueles objectos, factos ou eventos que envolvam processos de representação,
comunicação e significação, de uma forma aturada, comprensiva e extensiva. A
realidade, está, para Peirce, impregnada de signos, não parecendo existir uma
separação entre um mundo de fenómenos sígnicos e um mundo de fenómenos
não-sígnicos.
Max Fisch pergunta-se até que ponto é a
teoria geral dos signos de Peirce realmente geral. A sua resposta é a seguinte:
esta teoria é tão abrangente que qualquer coisa, seja ela o que for, é
implicada como signo uma vez que “the entire universe […] is perfused with
signs if not composed exclusively of signs” (Peirce, CP 5.448). Para Fish, a semiótica de Peirce “it is all
about signs, and it is about all signs” (Ketner ed., 1986; 322). Peirce
confirma esta abrangência numa carta dirigida a Lady Welby, a respeito dos
passos iniciais do seu percurso intelectual, "[know] that from the day
when at the age of 12 or 13 I took up, in my elder brother's room a copy of
Whately's "Logic," and asked him what Logic was, and getting some
simple answer, flung mysell on the floor and buried mysell in it, it has never
been in my power to study anything - mathematics, ethics, metaphysics,
gravitation, thermodynamics, optics, chemistriy, comparative anatomy,
astronomy, psychology, phonetics, economic, the history of science, whist, men
and women, wine, metrology, except as a study of semeiotic" (Semiotic and
Significs: The Correspondence […], C. Hardwick, ed., 1977, in Max Fisch, 1986;
85-86).
É possível
manter, ainda que provisoriamente, que o desenho de arquitectura, no quadro do
Projecto, possui uma função instrumental e uma finalidade extrínseca na medida em
que remete para a uma dada Construção ou, se se quiser, para uma determinada
Arquitectura material.
(...)
Com efeito,
para a Semiologia vinculada às propostas fundadoras de Saussurre, todo e qualquer
enunciado comunicativo baseia-se em regras e leis e estas configuram um código,
cuja estrutura é afim à estrutura da linguagem verbal, ou seja, uma estrutura
articulada, susceptível de
ser decomposta em elementos significantes mais simples. Neste sentido, a
Semiologia é uma linguística estrutural.
Para a
linguística estrutural a análise dos sistemas de representação não só não pode
ignorar a estrutura dos códigos implícitos nesses sistemas, como tal estrutura
subentende, por si mesma, o problema da articulação e, em particular, o
problema da dupla articulação.
Se o problema
da estrutura subentende o problema da articulação, e se a noção de Linguagem é,
em qualquer caso, redutível à linguagem verbal, à lingua natural, o problema da
articulação centra-se na oposição conceptual entre o paradigma e o sintagma. Na
prática semiológica tal oposição parece ter sido resolvido a favor da análise
paradigmática, tendo acabado a análise semiológica de mitos, de textos
históricos, da literatura, das artes plásticas, etc., por mostrar, também um
maior interesse pela abordagem estática e sincrónica, reduzindo-se as produções
visuais e multi-mediais a uma analogia com os textos verbais e uni-mediais.
Por outro lado,
a própria noção de Signo linguístico é tomada como uma relação entre dois
termos, como uma relação diádica. Sausurre define o signo não como algo
que “[...] une não uma coisa e um nome,
mas um conceito e uma imagem acústica. Esta última não é o som material,
puramente físico, mas a marca psíquica desse som, a sua representação fornecida
pelo testemunho dos sentidos; é sensorial e se, por vezes, lhe chamamos
material é neste sentido e por oposição ao outro termo da associação, o
conceito, geralmente mais abstracto”. Para Saussure o significante, a imagem
acústica, é arbitrária, não-motivada (Saussurre,1916,1999; 124 e seg.).
A definição que
Saussurre propôe para o Signo, a propósito das línguas naturais, tomando-o como
entidade mental que associa um significante a um significado, desempenha um
papel central na linguística estrutural. Este papel central prende-se com a
distinção entre signos naturais ou motivados e signos arbitrários ou
convencionais. Para Saussure, “”Ela [a arbitrariedade] não deve dar a ideia de
que o signicante depende do da livre escolha do sujeito falante [...] queremos
dizer que ele [o significante] é imotivado [...] em relação ao significado, com
o qual não tem, na realidade, qualquer ligação material” (Saussurre, idem). Tal
como para Saussurre, as teses da linguística estrutural, mesmo quando aplicadas
a produções gráfico-visivas de carácter pictórico e figurativo, não poderiam
aceitar a presença de qualquer factor de motivação ou ligação material entre o
que é significante e o que é significado: o Signo, qualquer sistema de signos,
para construir linguagem, terá de ser convencional e, portanto, arbitrário.
A razão pela
qual o Signo há-de ser convencionado é simples e imediata: por um lado, toda a
relação significante-significado, baseado na similitude ou na continuidade
arrisca-se a “alterar o sentido, transferindo para o significado as
propriedades do significante” (Guiraud, 99; 30) e, por conseguinte, a tornar
inviável qualquer consenso social em torno de uma dada língua ou seja, a tornar
inviável qualquer codificação; por outro lado, se “existem signos que mantêm
uma relação de similaridade com as coisas, insere-se na mecânica semiótica um
principio de parentesco que, levado ao extremo, fará nascer uma teoria da
motivação profunda dos signos e relegará os simbolos arbitrários (geralmente
considerados os signos por excelência) para a categoria de entidades não
suficientemente definidas na sua profunda motivação originária” (Eco, O Signo, pag. ???). Contudo, na representação gráfica, a figura,
parece manter uma relação de motivação com o objecto figurado. A figuração
trabalha na semelhança e, até, por vezes na cópia: propôe uma ligação material
entre os significantes e os respectivos significados, através da semelhança . Tome-se, por exemplo, a representação
perspéctica ou, mesmo, outros modos de representação gráfica mais esquemáticos
e abstractos, como o gráfico, o diagrama, a sinalética, etc., nos quais parecem
conviver traços de semelhança ou de continuidade entre significante e
significado, juntamente com traços convencionais.
Esta concepção
de Signo contém, ainda, uma outra consequência, particularmente importante na
perspectiva de uma análise daquele desenho que incorpore algum tipo de ideia ou
de ambição projectual.
Com efeito,
decorre da concepção diádica do Signo que se a linguística estrutural se
reconhece como Semiologia, ou seja, como o estudo dos modos de produção e
leitura do enunciado comunicativo, já a Semântica, ou seja, o modo de produção
de conhecimento, é uma disciplina difícil de integrar. Em consequência, na
perspectiva estruturalista, o significante não está por um dado Objecto,
existente, antecipado ou ficcionado, mas por uma imagem mental, o Conceito,
cuja aderência à realidade é, no mínimo, ténue. Quer isto dizer que para a
concepção estruturalista do Signo, o Objecto e, logo, a Realidade, externa à
Consciência e, portanto, independente desta, são categorias periféricas.
Não parece,
portanto, ser a concepção estruturalista da linguagem particularmente adequada
ao estudo de uma semiótica gráfico-visiva, ou seja, ao estudo de um particular
sistema semiótico no qual a representação se baseia menos na arbitrariedade da
convenção do que na semelhança e na continuidade, e que seja suposto estar
estreita e necessáriamente ligada e, até, determinada, por uma realidade que,
em si mesma e de alguma forma, é exterior aos processos sígnicos.
A Semiótica de
Peirce, não só se funda numa problematização da noção de Objecto, assegurando
uma estreita aderência a uma Realidade autónoma relativamente aos processos
sígnicos, como considera que é o Objecto que determina o Signo, dissolvendo,
portanto, a dualidade entre motivação e convenção. Por outo lado e dado que se
considera equivalente à Lógica, a Semiótica peirceana assegura também o
alargamento conceptual da Significação à Inferência. Neste sentido parece
adequar-se melhor que a Semiologia ao estudo das semióticas gráfico-visivas e,
em particular, a do desenho que pertence a um projecto.
Peirce é,
normalmente, considerado o fundador da Semiótica moderna. Distingue-se esta
Semiótica das teorias gerais do Signo desenvolvidas quer por algumas escolas
filosóficas da antiguidade clássica, nomeadamente pela escola estóica, quer
pela filosofia escolástica. Distingue-se ainda esta Semiótica daquela outra,
proposta por John Locke, uma Semeiotike tomada como o terceiro ramo de
uma de uma proposta de classificação geral das ciências.
Ao contrário da
Semiologia europeia, que a Semiótica peirceana antecede em várias décadas, já
que a sua primeira formulação é de 1867, não está nem conceptualmente nem
historicamente ligada quer à linguística Moderna, desenvolvida no século XIX,
quer a quaisquer derivações, generalizações ou extrapolações a partir desta
última .
São por demais
evidentes alguns pontos comuns entre o pragmatismo peirceano e a filosofia
analítica de Frege, seu contemporâneo. Na verdade, a Semiótica Peirceana pode,
em alguns aspectos e com algumas reservas (quais aspectos, quais reservas ?) ser comparada
àaquela tendência filosófica própria do pensamento anglo-saxónico, designada
por Filosofia Analítica, tipificada não só pelo próprio Frege mas também por
Russel, Wittgenstein e, mais recentemente, por .Quine, Tarski, Alonzo Church e
Donald Davidson. A obra de Peirce inspirou, posteriormente, numerosos autores,
tanto nos Estados Unidos como na Europa. Os comentadores de Peirce destacam,
normalmente, os seguintes: Josiah Royce e “The Problem of Christianity” , em
1913, Ogden e Richards e “The Meaning of Meaning” em 1923, Charles Morris e
“Foundations of the Theory of Signs” em 1938, Roman Jakobson e “Essais de
Linguistique Générale” em 1963, Thomas Sebeok e “Contributions to the Doctrine
of Signs” em 1974, Umberto Eco e “A Theory of Semiotics” em 1976, John Deely e
“Introducing Semiotic” em 1982, G. Deledalle e “Théorie et Pratique du Signe”
em 1979, etc. É manifesta a influência de Peirce na psicologia da percepção de
Gibson e Biederman e, através de Gibson, na história e crítica de Arte de
Gombrich. Essa influência parece manifestar-se também nalgumas propostas de
Foucault e Habermas (????).
No campo específico da filosofia norte-americana, salienta-se, normalmente, a
obra de William James, de John Dewey e de Hillary Putnam como devedoras do
Pragmatismo peirceano.
Em termos
estritos, a Semiótica é pensada por Peirce como equivalente à Lógica, tomada
aqui em sentido lato, como o estudo do raciocínio correto ou como a
ciência dos meios para agir razoavelmente. A Lógica peirceana insere-se nas
Ciências Normativas, juntamente com a Ética e a Estética: a ética determina a
lógica através da análise dos fins aos quais esses meios se dirigem; a estética
determina a ética ao definir qual é a natureza de um fim que seja em si mesmo
admirável e desejável em quaisquer circunstâncias independentemente de qualquer
outra consideração de qualquer espécie. Em Peirce, a ética e a lógica são
subsidiárias da estética (cf. a este respeito o cap. 7).
Segundo Peirce,
a Lógica é definida como a teoria formal dos signos: “Logic will here be
defined as formal semiotic. A definition of a sign will
be given which not more refers to human thought [tomado como consciência
individual].It is from this definition, together with a definition of ‘formal’,
that I deduce mathematically the principles of logic” (Parts of Carnegie
Applications, 1902, em Marty, ????, §14). A
Lógica geral, ou seja , a Semiótica, engloba trés disciplinas: a Gramática, a
Lógica Crítica, isto é, a Lógica em sentido estrito, e a Retórica ou
Metodêutica. A Semiótica inclui-se nas Ciências Normativas, com a Ética e a
Estética. Estas Ciências Normativas, juntamente com a Fenomenologia e a
Metafísica, constituem a Filosofia..
É a equivalênia
entre Semiótica e a Lógica que permite à generalidade dos estudiosos e
comentadores da obra de Peirce tomá-la como uma epistemologia ou como uma
filosofia do Conhecimento (Ransdell, 1986, 1998; §5). Segundo
Ransdell, a Semiótica “would take the place of logic (as traditionally understood),
epistemology, philosophy of mind, and so forth. In its extra-philosophical applications
it would, he believed, be of use in any science which studies life processes or
in any discipline which studies the products of intelligence as such (hence, in
critical disciplines such as esthetic criticism, social criticism, etc.)” (ibidem). Segundo Max Fisch, “Peirce, desde o
início, concebeu a lógica como cabendo total e inteiramente no âmbito da teoria
geral dos signos; que todo o seu trabalho em lógica se baseou nesse
pressuposto; que uma vez, aos cinquenta anos, distinguiu um sentido restrito e
um sentido lato da lógica, pelo último dos quais, a lógica era coextensiva com
a teoria geral dos signos; que ele eventualmente abandonou o sentido restrito;
e que o tratado compreensivo no qual trabalhava na última década da sua vida
haveria de intitular-se Um Sistema de Lógica considerado como Semiótico (A
System of Logic, considered as Semiotic)” (Ketner, ed., 1986; ????).
A Semiótica de
Peirce, enquanto visão inteira, pressupõe uma filosofia da Linguagem porque
examina as condições e as regras sociais que regulam os actos comunicativos .
Contudo, em
Peirce, tanto o acto comunicativo como a Linguagem que o suporta, possuem um
sentido bastante mais lato do que o atribuído pela Semiologia. É certo que o alargamento
do campo da linguística é, também, antecipado por Saussurre . É também certo que, de acordo com Eco
(1985; 37), vários autores “assentaram numa semiótica dos objectos da sociedade
de consumo (, Barthes, Moles, 1969; Baudrillard, 1968)". Só que para
Saussurre, como também, mais tarde, para Barthes, a linguagem natural é o mais
importante entre todos os sistemas de sinais (cf. Saussurre, ibid.) Mas não é
menos certo que não parece existir em Peirce nenhuma noção básica que
corresponda inteiramente ao signo linguístico de Saussurre, nem nenhum conceito
de Linguagem equivalente à Linguagem semiológica. Segundo
Ransdell:”[…] there is no basic conception in his theory corresponding to the
idea of the linguistic sign, though it is often thought that his conception of
the symbol is more or less the same as the conception of the linguistic sign.
But this is not so” (“On Peirce's Conception of the Iconic Sign”, 1997; §16).
A este
respeito, convém assentar no que se entende, aqui, por esse sentido lato da Linguagem.
Deely, para o esclarecer, recorre a Maritain: “[o] que define a
linguagem não é exactamente o uso de palavras, ou mesmo, o uso de signos
convencionais; é o uso de qualquer signo, qualquer que ele seja, que envolva o
conhecimento ou a consciência da relação de significação, e, portanto, uma
potencial infinidade; é o uso de signos quando esse uso manifesta que a mente captou e fez emergir a
relação de significação. [Já a invenção] dos signos convencionais particulares
que são as palavras, a criação de um sistema de signos composto de 'fonemas'
e 'morfemas' foi, em si própria, um segundo 'milagre', uma outra descoberta da
inteligência humana, não menos característica do homem, mas menos essencial do
que a descoberta da relação de significação, e por natureza não
anterior à mesma” (Maritain,
1957:89-90, in Deely, 1995: 141-2). A Linguagem é, em suma, tomada por Peirce,
na versão de Deely, como um instrumento para modelizar o Umwelt do homem na
mente, no Innenwelt. Tanto Chomsky (1979: 35-36) como Sebeok (1981; 12) Deely
(1982,1995: 172) e Max Fisch (1983, 1986; 356 e seg.) defendem, aproximadamente
esta noção acerca do que é a Linguagem.
Contudo,
justamente porque é a noção de Linguagem, em Peirce, uma noção abrangente, a
sua filosofia da Linguagem pode e, talvez, deva ser tomada como uma filosofia
do Pensamento, na medida em que encontra a Linguagem não só para lá dessas
transacções comunicativas, para lá das estruturas convencionais, das relações codificadas,
dos sistemas de representação estatuídos, mas também nos dispositivos do
pensamento inferencial, na manifestação dos processos perceptivos e na acção e
no comportamento que revele a mais ténue presença da inteligência.
A Semiótica
peirceana é também uma filosofia na medida em que configura uma construção
intelectual que, embora fundada no common-sensisme, ambiciona ser desenvolvida a partir de
alguns princípios simples, embora abstractos e gerais,ou seja, sem nenhuma
relação directa com o que senso-comum conhece, aplicados de maneira recursiva,
ou seja, aplicados repetidamente, por forma a garantir uma rede de conceitos
estabelecidos de tal forma que nenhum conceito individual seja compreensível
sem a presença da construção inteira. Por outras palavras, a Semiótica de
Peirce quer ser uma construção intelectual na qual todas as partes se apoiam mútuamente e em que as últimas se
apoiam pelas primeiras. Não quer isto dizer que a importância da Semiótica
de Peirce resulte das suas qualidades
formais ou de outras qualidades internas, mas sim que essa construção
intelectual resulta dum objectivo inicial e determinante: que a Semiótica,
enquanto disciplina, deveria constituír-se como uma teoriasistemática e reflexiva acerca da acção
dos signos, ou seja, da Semiose.
A propósito da
noção de cognição, Peirce esclarece o seguinte: “In the first place every kind
of consciousness enters into cognition. Feelings, in
the sense in which alone they can be admitted as a great branch of mental
phenomena, form the warp and woof of cognition […]. The will, in the form of
attention, constantly enters, and the sense of reality or objectivity, which is
what we have found ought to take the place of will, in the division of consciousness,
is even more essential yet, if possible. But that element of cognition which is
neither feeling nor the polar sense, is the consciousness of a process, and
this in the form of the sense of learning, of acquiring, of mental growth is
eminently characteristic of cognition. This is a kind of consciousness which
cannot be immediate, because it covers a time […]. It differs from immediate
consciousness, as a melody does from one prolonged note […]. This is the
consciousness that binds our life together. It is the consciousness of
synthesis” (Peirce, CP 1.381).
Sendo uma visão
inteira e uma costrução intelectual sistemática, é por vezes difícil
distinguir, na obra de Peirce, entre o significado dos signos, o significado da
experiência e o significado do mundo (Cf. Eco, “Signos […] Notas sobre
Semiótica, Filosofia e Ciências Humanas”, 1985, 1989; §6 e Deledalle, 2000;
20-21).
Note-se que em
Peirce a experiência é cognição, ou seja, é tomada como um efeito na consciência produzido por algum
objecto ou evento actual, que contribui para a formação de um hábito ou conduta
deliberados, ou seja, controlados pelo Eu que pensa, por
oposição a um hábito ou conduta automáticos e instintivos (cf. CP 5.480).
Por esta razão,
cabe perguntar àcerca do que é que Peirce fala, quando fala do signo: fala,
precisamente de algo que estabelece a mediação entre a coisa que é capaz de ser
conhecida e o conhecimento que é possível obter dessa coisa, isto se fosse
possível identificar em Peirce uma separação entre Mente que conhece e
Realidade conhecida, o que não o é, de todo.
A maneira como
Peirce define o Signo, e define-o de muitas maneiras, com muitas versões e
nuances, funda-se no que Ransdell designa como o “common sense level”, a compreensão
fornecida pelo senso comum: o Signo – quer o encontremos no sonho, na
imaginação, na memória ou na percepção -- é tal que se uma cognição lhe
responde apropriadamente, poderá revelar -- descobrir, manifestar, tornar
aparente, transformar numa experiência -- alguma coisa – o Significado --
àcerca de outra coisa – o Objecto que o Signo representaRansdell, “On Peirce's Conception of the Iconic Sign”, 1997; §4) Tem-se
aqui, nesta descrição da relação de Representação, os conceitos teóricos que
Peirce irá explorar na sua Semiótica -- o Signo, o Objecto e o Interpretante. O
nome pelo qual Peirce designa esta relação triádica é o de Representação,
considerando que na relação de Representação o Signo refere, denota, representa
ou está pelo seu Objecto e que determina a ideia, o conceito, o significado ou
o sentido do Interpretante. Portanto, para Peirce a
relação de Representação ou ainda, aquela relação na qual o Signo “[…] of
whatsoever kind, professes to mediate between an object, on the one hand, that
to which it applies, and which is thus in a sense the cause of the sign, and,
on the other hand, a Meaning, or to use a preferable technical term, an
Interpretant, that which the sign expresses, the result which it produces in
its capacity as sign.” (Pragmatism,
1907, MS 318).
Peirce, na sua teoria geral dos signos, ora acentua
o carácter do Signo como Objecto (sígnico) ora acentua o carácter do Signo como
Acção (sígnica). Esta distinção é por diversas vezes sugerida pelo próprio
Peirce: “[...] I confine the
word representation to the operation of a sign or its relation to the object
for the interpreter of the representation. The concrete subject that represents
I call a sign or representamen» (1903 - CP 1-540. Lowell Lectures: Lecture III,
in Marty, §19). No primeiro caso, o da acentuação do Signo-Objecto, ter-se-á
uma teoria formal dos signos; no sefundo caso, o da acentuação do Signo-Acção,
ter-se-á uma teoria pragmática dos signos
Refere-se
Peirce ao signo-objecto como o signo em si mesmo ou, de acordo com a
terminologia peirceana, ao representamen, isto é, a algo que está por
outra coisa ou algo que, para além da impressão que produz nos sentidos, traz
em consequência, qualquer outra coisa ao pensamento. Para
citar expressamente Peirce, “[an] object serving to represent something to the
mind” (Peirce, CD, 1887) ou ainda, a respeito da relação de Representação: “[…]
is that relation of the representamen to its object which consists in it
determining a third (the interpretant representamen) to be in the same relation
to that object” (Logical Tracts (nota a) 1903, MS 491). A teoria formal dos signos descreve o processo
sígnico de uma forma abstracta, em que os factores tempo, contexto e agentes
comunicativos são omitidos com vista a uma maior generalidade e aplicabilidade.
Pensar a
Representação como uma relação de determinação Objecto-Signo-Interpretante
equivale a uma definição abstracta e geral da relação de Representação. É neste
caso que se considera a teoria geral dos signos como uma teoria formal dos
signos.
A concepção
triádica de Peirce, reduzida a três termos essenciais e não mais que três,
dispensa qualquer referência quer ao emissor do Signo, quer ao agente da
interpretação sem, contudo, negar a eventual pertinência destas referências
sempre que as características do campo de aplicação da Semiótica, isto é, as
semióticas, assim o exijam. Peirce considera que existem signos naturais aos
quais não é possível atribuir nem um emissor nem uma intencionalidade: o
emissor é, portanto, dispensável. Considera também que um dado signo não deixa
de o ser pelo facto de não lhe estar presente nenhum intérprete: o agente da
interpretação é, também, dispensável. Por fim, Peirce, repetidamente,
estabelece a distinção entre o acto de pensar, que é assunto da psicologia, e o
pensamento em si, que é assunto para a Lógica e, logo, para a Semiótica. .
Ao elevado grau
de abstração e formalismo que caracteriza a definição peirceana de relação de
Representação corresponde um grau proporcional de generalidade e, logo, de
versatilidade e aplicabilidade. Com efeito: “[...] It
seems best to regard a sign as a determination of a quasi-mind; for if we regard
it as an outward object, and as addressing itself to a human mind, that mind
must first apprehend it as an object in itself, and only after that consider it
in its significance; and the like must happen if the sign addresses itself to
any quasi-mind. It must begin by forming a determination of that quasi-mind,
and nothing will be lost by regarding that determination as the sign. (v1905 - MS 283 ; 131. The basis of
Pragmaticism).
Contudo, não
parece ter sido esta a generalidade a principal motivação de Peirce. Com
efeito, a definição peirceana permite repensar de uma forma lógica, ou seja,
sem recurso à Introspeção e à Intuição, o processo e os conteúdos do Pensamento
e, logo, dispensar a noção cartesiana de uma substância mental, a qual implica
uma dualidade entre materialidade e mentalidade, entre vida e pensamento e
justifica a psicologização da própria Lógica. Segundo
Ransdell, “his most basic motivation in abstractively refining the conception
of the sign relation into three, and only three, essential terms was […] that
of allowing us to reconceive the mind and mentality in terms of the logical
form of the process and content of thought as such, as distinct from regarding
the mind as something which is doing the thinking, the aim being to eliminate thereby
the need for invoking a Cartesian mental substance as agent […]” (Ransdell, “On
Peirce's Conception of the Iconic Sign”, 1997, §10).
É verdade que
Peirce, em muitas das versões da sua definição de Representação e de Signo,
refere explícitamente o agente da interpretação e o emissor do Signo. Estas
referências devem-se, certamente, a esta ou aquela circunstância particular,
relacionada com as características da audiência para quem Peirce supunha
dirigir-se. Com efeito, a principal razão destas repetidas referências
devem-se, sobretudo, à dificuldade sentida por Peirce em fazer-se entender,
ainda que a solução para esta dificuldade lhe acarretasse alguns compromissos
com o mentalismo e com o psicologismo .
Segundo Peirce, “It is clearly
indispensable to start with an accurate and broad analysis of the nature of a
Sign. I define a sign as an thing which is so determined by something else,
called its Object, and so determines an effect upon a person, which effect I
call its interpretant, that the latter is thereby mediately determined by the
former. My insertion of ’upon a person’ is a sop to Cerberus, because I despair
of making my own broader conception understood” (Marty, §47 - 1908 - SS p.80 . Letter to Lady Welby dated "1908 Dec.23"). Para Marty, Peirce had
a great deal of difficulty getting people to accept this conception, quite
banal today, of a formal model of the sign (Marty, Analysis of the
76 Definitions of the Sign in 76 Definitions of
the Sign by C.S.Peirce). Para Ransdell, “Peirce's rhetorical concessions to
this increasingly dominant but alien intellectual situation [a tendência para
psicologizar a Lógica e, de um modo geral, a Filosofia] proved to be unwise:
[…] such concessions have misled many readers ever since” (Ransdell, 1997,
§11).
Considera-se,
aqui, que a Semiose descreve o processo sígnico de uma forma existencial, ou
seja, como acção situada num tempo e num contexto, com agentes concretos, e
neste caso ter-se-à uma teoria pragmática dos signos. A abrangência da teoria
pragmática dos signos reside na, capacidade de dar conta, de uma forma
sistemática e compreensiva, daquelas experiências que envolvam processos de
Semiose como experiências de Conhecimento. Com efeito, na teoria pragmática de
Peirce, Semiose é sinónimo de Inferência. Isto quer dizer, como se viu, que a
semiótica Peirceana equivale a uma Lógica.
Refere-se
Peirce ao signo-acção como o objecto específico da Semiótica, ou seja, à semiosis
ou Semiose. Em sentido estrito, a Representação não equivale à Semiose, uma
vez que esta última consiste precisamente naquela acção do Signo pela qual este
determina um segundo Signo, o Interpretante. Por outras palavras, a Semiose é
entendida por Peirce como o processo de produção do Interpretante.
A Semiose
equivale, portanto, à produção de um significado por parte de uma consciência a
qual, sujeita à acção do representamen, o reconhece como estando por um
determinado Objecto e, logo, conhece esse Objecto, ainda que parcial e
mediatamente: […] Now a sign is a thing related to an object and determining in the
interpreter an interpreting sign of the same object”. (MS 462. Lowell Lectures, 2nd Draught of 3rd
lecture in Marty, #26). Por outras palavras, à Semiose corresponde a representação de um conhecimento
inferido da experiência: a Semiose é uma inferência do observado ou observável
para o não observado
O processo
semiótico é infindável: jamais o Objecto poderá ser conhecido inteiramente e se
o fôr, não há maneira de provar essa inteireza. Segundo
Peirce, “[…] the interpretant is nothing but another representation [ou Signo]
to which the torch of truth is handed along; and as representation, it has its
interpretant again. Lo,
another infinite series”
(Marty, §6, n.d., CP 1.339), ou ainda,
Para Deledalle,
a semiótica de Peirce procura responder à seguinte questão: Como é que
pensamos?” (Deledalle, 2000; 20). Para Ransdell, a semiótica de Peirce procura
elaborar uma concepção do Signo e da Semiose que possa constituír a base de uma
Lógica abrangente, capaz de descrever e explicar todos os fenómenos, reais ou
ficcionais, que provenham e exibam a acçaõ da inteligência: “Considered apart
from its application to this or that special subject-matter or problem, then,
the theoretical conception of a sign--or, more exactly, the conception of the
triadic [...] sign relation -- is a highly abstract explication of the formal
structure of intelligence, which Peirce himself regarded as co-extensive with
life”. (Ransdell, “Peirce” in Encyclopedic
Dictionary of Semiotics, 1986).
Peirce coloca o Interpretante na relação
de Representação: “[a sign] creates in the mind of that person an equivalent
sign, or perhaps a more developed sign. That sign which it creates I call the
interpretant of the first sign. (CP 2.228).
Nesta
definição, a ideia básica é a de Interpretação, não a de Estímulo. Quer isto
dizer que a Semiose configura uma experiência positiva, determinada pelo
representamen, e não uma experiência passiva, pré-determinada pelo Objecto
experimentado. O Signo possui uma virtus, ou seja, uma virtualidade .
É natural que
quando o significado de um dado signo não é imediatamente claro ou quando esse
significado, uma vez atribuído, venha a revelar-se errado, se pense a
experiência de conhecimento perante esse signo como uma Interpretação, dado que
essa experiência é explícita. Contudo, o conceito de interpretação não se
identifica necessariamente com a procura de um sentido obscuro: é um artifício
que revela um sentido. Existem experiências de conhecimento tácitas, como é o
caso da percepção ou, mais precisamente, do juízo perceptivo, ou seja, aquilo
que resulta de um perceptum sensível, que não são nem menos positivas
nem menos construídas que as anteriores; também nestes casos é razoável
atribuir à experiência o carácter de Interpretação.
A ideia da
percepção como experiência activa é elaborada, por exemplo, por Piaget e por
Gibson, no campo da Psicologia, ou por Gombrich, no campo da História da Arte,
mas também pela fenomenologia e por outras escolas e doutrinas.
Segundo Eco
compreende-se “em que sentido, como já tinham afirmado outros filósofos, o
progresso sígnico se identifica com o processo abstractivo do pensamento. Trata-se
de escolher alguns aspectos gerais da experiência e construir (um) modelo
estenográfico” (Eco, 85; 124). Compreende-se, também, a razão pela qual Gibson
(1966) considerou tão influente o conceito triádico de signo, em particular o
de signo Icónico. Gibson considerava, tal como que a percepção consistia numa
construção mental baseada em informação relevante adquirida pelo sistema de
sentidos. No que respeita à percepção visual, Gibson manteve que o olhar
actuava não como um écran passivo no qual as imagens do mundo externo seriam
projectadas mas sim como um processo activo de selecção – incluindo a locomoção
do corpo e a movimentação da cabeça e dos olhos -- de invariantes estruturais,
a partir das quais o cérebro construiria os ‘precepta’, e sugeriu que a
cognição estabelece uma relação triádica: “I have suggested (...) that a three way relation exists between a
precept, a stimulus invariant and its source” (Gibson, 66; 244). Gombrich defende
que a visão e, portanto, a representação mental do que é visto depende de
hipóteses cognitivas elaboradas pelos sistemas de percepção. Arnheim estabelece
que a cognição é a interacção entre o conhecimento perceptivo-intuitivo e o
conhecimento lógico-intelectivo.
Para Peirce, o juízo perceptivo corresponde
mesmo a um modo de pensamento inferencial, em particular à inferência abdutiva
ou Abdução. Segundo Eco, Peirce “deixa claramente compreender que a percepção é
um processo abdutivo” (Eco, 1973, 1985; 118) ou ainda que “[…] para Peirce há
também interpretação a nível da percepção” (Eco, idem).
A Interpretação
tomada não como o acto de interpretar mas sim como a representação de um
conhecimento inferido da experiência é uma ideia. Ora, a Ideia é para Peirce o
melhor e mais claro exemplo de Signo ou, por outras palavras, é um Signo puro. Para
Deely, que retoma o conceito peirceano de Interpretante, “ao contrário dos
objectos, incluindo as palavras, que também são signos, as ideias não podem
deixar de conferir presença a alguma coisa além delas próprias” e, por essa
razão, ” elas não fazem senão significar, i.e., conferir presença aos objectos
da percepção […] que as ideias elas mesmas não são. […] As ideias, e apenas
elas entre todos os componentes do mundo, significam por necessidade. Para
elas, ser e significar é uma e a mesma coisa” (1982, 95; 173). Desta forma,
compreende-se que a interpretação seja uma prática semiótica e que o
Interpretante, seja Signo. Compreende-se também que para Peirce a experiência
da Interpretação seja, por si mesma, de um ponto de vista pragmático,
infindável, e que a semiose não possa deixar de ser semiose ilimitada: “[A sign
is] anything which determines something else (its interpretant) to refer to an
object to which itself refers (its object) in the same way, the interpretant
becoming in turn a sign, and so on ad infinitum” (Peirce, Baldwin Dictionnary,
“Sign”, 1902, CP 2.303).
O Objecto
determina o Signo; o Signo, por sua vez, determina um segundo signo, o
Interpretante, de tal forma que este último revele um aspecto ou aspectos
parciais do Objecto.
É possível
supor que em condições favoráveis e após uma sequência de sucessivas
Representações, o Interpretante revele tudo o que há para revelar acerca do
Objecto. Neste caso, o Interpretante final e o Objecto seriam idênticos, na
medida em que exista uma identidade entre aquilo que uma coisa é e aquilo que
se pode saber dessa coisa. Segundo Ransdel, neste caso
extremo “the object and the interpretant would differ only in the sense in
which there is a difference between something considered in itself and
something considered under the aspect of being known; hence in actual cases,
where the interpretant is only a partial revelation of the object, there is a
real but correspondingly partial identity of interpretant and object--though,
again, as qualified by the difference between the thing in itself and the thing
as it is known to be (Ransdell, idem, §7).
Como se viu, as
definições formais de Representação e de Semiose, pressupôem, da parte de
Peirce, uma reflexão aturada sobre a natureza desse terceiro termo da relação
semiótica, o Objecto. A reflexão sobre a natureza do Objecto peirceano remete,
em primeiro lugar, para o esclarecimento da noção de determinação, em segundo
lugar, para a distinção entre o Objecto Dinâmico e Objecto Imediato.
Da identidade
parcial entre Interpretante e Objecto, fundada na determinação mediata (porque
mediada pelo Signo) do primeiro pelo segundo, parecem decorrer duas
consequências. Em primeiro lugar, e considerando-se que Peirce parece entender
a relação de determinação como uma relação de causalidade, não parece ser
possível alterar o significado do Signo sem alterar previamente as propriedades
não semióticas do Objecto, isto é, sem recompôr esse Objecto: “Suffice it to
say that a sign endeavours to represent, in part at least, an Object, which is
therefore in a sense the cause, or determinant, of the sign even if the sign represents
its object falsely.” (Marty, 52 - v.1909 - CP 6-347). Em segundo lugar, não parece ser possível
postular algum tipo de relação de Representação sem que o Objecto seja
previamente dado, uma vez que “[...] A sign is intended to correspond to a real thing, or fact, or to
something relatively real» (Marty, 24 - v 1903 - MS 9. Foundations of
Mathematics).
Se a primeira
consequência confirma que aquela aderência à Realidade é uma das
características que marcam o discurso peirceano, já a segunda consequência
poderia ser tomada como um
ponto litigioso na teoria de Peirce: por um lado, se o Signo é causado pelo Objecto, torna-se difícil explicar
a ocorrência de representações falsas ou, o que é dizer o mesmo, de inferências
erradas; por outro lado, constatam-se numerosas relações de Representação, como
é o caso das representações construídas no ambito do Projecto, em que é a própria Representação que
aparece a postular o seu Objecto e em que o Signo, portanto, parece anteceder o
Objecto que o determina .
A este
respeito, deve notar-se o seguinte: a relação de determinação ou seja, de
causalidade, que Peirce designa também por relação de afectação, possui,
normalmente, quatro significados distintos: o da causalidade material, o da
causalidade formal, o da causalidade eficiente e o da causalidade final. Em Peirce, encontram-se referências à
causalidade eficiente, na qual o antecedente contém o consequente, e à
causalidade final, na qual é o consequente que contém o antecedente. É neste
último sentido que a relação pela qual o Objecto determina imediatamente o
Signo e, mediatamente, o Interpretante, deve ser entendida. Para Ransdell, a Semiose peirceana “[…] involves final causation or
teleology [Peirce] means that there is a factor involved, a telos or end (an
unactualized and thus merely ideal entity towards which there is asymptotic
approximation), that cannot be omitted in a complete account of how any given
semiosis process works (“Kinds of Determinants of Semiosis», §1, in The
Meanings in Things, v. 05-08-01).
Note-se,
também, que o Objecto peirceano não pertence apenas à categoria ou modo de Ser
da Existência, da Actualidade, daquilo que é localizável no espaço e no tempo;
o Objecto pertence à Realidade e esta inclui três modalidades: a Possibilidade
ou o modo de Ser do que é possível, a Actualidade ou o modo de Ser do que
existe e a Necessidade ou o modo de Ser do que é representação ou conhecimento.
Desta forma, o objecto semiótico não se reduz ao hic et
nunc da Actualidade: “A Sign, then, is anything whatsoever -- whether an Actual
or a May-be or a Would-be,-- which
affects a mind, its Interpreter, and draw that interpreter's attention to some
Object whether Actual, May-be or Would-be which has already come within the
sphere of his experience; [...]” (Marty, §60, 1911, MS 67O1, sublinhado meu).
Note-se, por
fim, que o Objecto peirceano é pensado de duas maneiras simultâneas: como
objecto semiótico, que aparece como um dos três termos da relação de
Representação, que está presente de um modo representativo e que Peirce designa
como Objecto Imediato, e o Objecto por si mesmo, independente do modo como é
representado, que Peirce designa como Objecto Dinâmico. Segundo Peirce, “ we have to distinguish the
Immediate Object which is the Object as the Sign itself represents it, and
whose being is thus dependent upon the Representation of it in the Sign, from
the Dynamical Object, which is the Reality which by some means contrives to
determine the Sign to its Representation” (4.536).
O Objecto
Imediato é, de alguma forma, imanente à Semiose: é a coisa tal como aparenta
ser ou como é pensada que é. O Objecto Dinâmico é transcendente à Semiose, ou
seja, transcende a cognição e, portanto, é Real, no sentido em que Peirce pensa
a Realidade: “The real is what doesn't depend on what we think of it" (verificar fonte).
Enquanto
objecto semiótico, o Objecto Imediato é também um Signo. Para Peirce, "[It] is easy to see that the object of a sign [o Objecto
Imediato], that to which it virtually at least professes to be applicable, can
itself only be a sign. For example, the object of an ordinary proposition is a
generalization from a group of perceptual facts. It represents those facts. These
perceptual facts are
themselves
abstract representatives, […] primarily of impressions of sense, ultimately of
a dark underlying something, which cannot be specified without its manifesting
itself as a sign of something below. There is we think, and reasonably think, a
limit to this, an ultimate reality, like a zero of temperature. But in the
nature of things, it can only be approached; it can only be represented. The
immediate object which any sign seeks to represent is itself a sign" (MS
599, 1902).
A distinção
entre Objecto Imediato e Objecto Dinâmico é de importância crucial em qualquer
tentativa de aplicação da Semiótica de Peirce como método interpretativo ou, se
se quiser, como ferramenta epistemológica: enquanto que o primeiro é o objecto
denotado pela proposição, quer a proposição seja falsa ou verdadeira, o segundo
é o objecto ao qual a proposição que tenha o valor de Verdade tende a
conformar-se. O primeiro torna inteligível a possibilidade do erro, o segundo é
necessário para a noção de Verdade.
Afirma-se,
portanto, que a semiótica de Peirce configura uma filosofia do Pensamento.dado
que à teoria do Signo corresponde, em Peirce, um modelo compreensivo e
exaustivo da estrutura formal da inteligência, ou seja, uma Lógica. Ao dialogismo corresponde a hipótese de
Peirce, segundo a qual o Pensamento opera através de um diálogo interno. Com efeito, para Peirce, “All thinking is conducted in signs that
are mainly of the same general structure as words”.
Numa primeira
leitura, torna-se compreensível que esta filosofia do Pensamento integrasse uma
Semiótica dado que a única via para aceder ao campo do Pensamento, que não é em
si mesmo um objecto sensível, consiste na análise das formas linguísticas que o
tornam perceptível. Poder-se-ia pensar, portanto, que a
filosofia do Signo assumisse um papel
de carácter meramente instrumental ou, se se quiser, um epifenómeno no quadro
duma filosofia do Pensamento.
Contudo, se se
considerar que, em Peirce, o pensamento é, por si mesmo, uma forma linguística
ou, mais precisamente, um acto sígnico, concluir-se-á que, para Peirce, a
filosofia do Pensamento e a filosofia do Signo são uma e a mesma coisa. Se o
acto de consciência, isto é, a ideia simples, é um signo e se as ideias
complexas, mais não são do que signos complexos, então a pergunta ‘o que é
isto?’ equivale à pergunta ‘o que é que isto significa?’, ou seja, falar do
conhecimento de um dado objecto e falar do significado desse objecto é falar da
mesma coisa: é falar de Semiose.
Max Fisch, no
seu “Just How General Is Peirce’s General Theory of Signs” (Ketner ed., 1986;
356-361) traça o percurso que Peirce percorre para chegar à conclusão de que
todo o pensamento é um manuseamento de signos. Peirce começa por tomar como
exemplo o modelo de conversação oral: numa conversa cada participante
interpreta os sons emitidos pelos outros participantes para a linguagem que,
supostamente, todos partilham, tomando esses sons como palavras, frases
significativas. Ora, não é fácil contestar que as palavras são signos, ou seja,
que as palavras remetem para outra coisa que não o seu próprio som. Neste
sentido, também frases, argumentos e discursos são signos. Da mesma forma, são
signos os “poemas, ensaios, contos, romances, orações, peças dramáticas,
óperas, artigos de jornal, relatórios científicos e demonstrações matemáticas. Um
signo pode, portanto, ser parte de um signo mais complexo, e todas as partes
que constituem um signo complexo são signos” (idem; 357).
Contudo, a
associação entre signos e pensamentos complexos formados, respectivamente, por
signos e pensamentos simples, só é sustentável se não for tomada como uma
adição de elementos simples . Com efeito, para Peirce, um pensamento
complexo, isto é, um signo complexo, como uma proposição ou um argumento,
constitui um processo dirigido para uma síntese . A este respeito, Peirce reconhece uma
distinção qualitativa entre signos mais ou menos complexos e propõe três
famílias de signos: o Tipo, a Réplica e o Tom .
Muito
brevemente: o Tipo é uma abstracção de carácter geral: o teorema de Pitágoras,
por exemplo; a Instância é uma réplica concreta e singular do Tipo: qualquer
triângulo rectângulo, por exemplo, utilizado para ilustrar o teorema de
Pitágoras; o Tom é uma qualidade ou uma sensação que predica a Instância: a cor
de um triângulo rectângulo não é significativa para a ilustração do teorema de
Pitágoras, mas poderá sê-lo no interior de uma composição pictórica. Tem-se
portanto que o Tipo é uma lei ou uma convenção ou uma classe que é um signo, a
Instância é um objecto ou um evento concreto que é um signo; o Tom é uma
qualidade ou um atributo que é um signo. A conformidade da Instância com o Tipo
é aproximada ou indicativa; a relação do Tom com a Instância é a relação pars
pro toto. É o Tipo que, por si mesmo, confere carácter significativo à
Instância – é um signo complexo; a Instância significa, em si mesma, o Tipo de
que é uma réplica – é um signo de um signo complexo; o Tom significa, em si
mesmo, um predicado que qualifica a Instância – é um signo de um signo de um
signo complexo.
Neste contexto,
é até possível colocar a hipótese que não hajam signos que não sejam signos de
outros signos. De facto, como se verá, esta hipótese configura a tese peirceana
de uma semiose ilimitada.
Segundo Max
Fisch, a primeira extrapolação do modelo de conversação oral é sugerida a
Peirce por aquelas passagens nos diálogos de Platão nas quais Sócrates defende
que o pensamento é um diálogo interno e silencioso: “o diálogo interior
construída na mente por ela própria sem o som das palavras” (idem; 358). Se o
diálogo em língua natural é constituído por signos verbais, também o pensamento
parece apresentar-se como um diálogo constituído por signos, estabelecido entre
sucessivos momentos da mente: "Moreover, signs require at least two
Quasi-minds; a Quasi-utterer and a Quasi-interpreter; and although these two
are at one (i.e. are one mind) in the sign itself, they must nevertheless be
distinct. In the Sign they are, so to say, welded.
Accordingly, it is not merely a fact of human Psychology, but a necessity ol
Logic, that everv logical evolution of thought should be dialogic" (CP
4.55)
È esta
hipótese, a do pensamento dialógico, que conduz Peirce, através de uma
elaborada argumentação, levada a cabo desde os seus primeiros textos até ao
“What the Pragmatism Is” , de 1905, à conclusão que uma teoria geral do
Pensamento equivale a uma teoria geral do Signo.
Esta conclusão
encerra algumas consequências importantes.
Em primeiro
lugar, que a Lógica mais não é do que outra designação para Semiótica, cujo
objecto específico é a semiose ou a acção dos signos: “Logic, in its general
sense, is […] only another name for semiotic, the quasi-necessary, or formal,
doctrine of signs” (Peirce, CP 2.277).
Em segundo
lugar, que a definição do objecto
específico da Semiótica, a semiose, equivale à definição do objecto específico
da Lógica, a Inferência, ou, se se quiser, que a Inferência é o equivalente
lógico da Semiose.
Em terceiro
lugar, que todo o pensamento é construído com signos e conduzido por signos. Com
efeito, “We have no power of thinking without signs“ (Peirce, “Some Consequences […]”, CP
5.265) dado que o que quer que se pense implica um conteúdo de consciência –
uma sensação, uma imagem, uma concepção, uma representação – que é, por si
mesmo, um signo. É na tentativa de procurar extraír as consequências mais
fundas a propósito da equivalência entre significação e inferência que Peirce
elabora uma semiótica da consciência humana e conclui que o próprio da natureza
humana é, precisamente, ser Signo. Com efeito, para
Peirce, “the word or sign that the man uses is the man itself” (Peirce,
“Some Consequences […]”, CP 5.314),
porque ”[…] it follows from our own existence […] that everything which is
present to us is a phenomenal manifestation of ourselves. [… ] When we think,
then, we ourselves, as we are at that moment, appear as a sign” (Peirce, “Some
Consequences […]”, CP 5.283).
Em quarto
lugar, a uma refutação da Introspecção, enquanto possibilidade de um
conhecimento directo do mundo interno, dos conteúdos da consciência: “We have
no power of Introspection, but all knowledge of the internal world is derived
by hypothetical reasoning [ou seja, por abdução] from our knowledge of external
facts” (Peirce, “Some Consequences of Four Incapacities Claimed For Man”, in
Journal of Speculative Philosophy, 1868, CP 5.265) .
Em quinto
lugar, a uma refutação da Intuição , enquanto possibilidade de um
conhecimento imediato do mundo externo: “We have no power of Intuition, but
every cognition is determined logically by previous cognitions” (Peirce, “Some
Consequences […]”, CP 5.265). Com efeito, se não há semiose que não provenha de
outra semiose e não remeta para uma outra semiose, então não há inferência que
provenha de uma inferência anterior e que não remeta para uma inferência
posterior, não existindo, portanto, premissas não inferidas nem conclusões que
encerrem a inferência: “[…] no present actual thought (which is a mere feeling)
has any meaning, any intellectual value; for this lies not in what is actually
thought, but in what this thought rnay be connected with in representation by
subsequent thoughts; so that the meaning of a thought is altogether something
virtual" (Peirce, “Some Consequences […]”, CP 5.289).
Por fim, que o
conhecimento do mundo externo é sempre um conhecimento mediado, ou seja, que o
acto de conhecer não configura uma relação diádica, entre uma mente que conhece
e um objecto que é conhecido, mas sim uma relação triádica, que inclui
necessáriamente um elemento intermédio de mediação, um ‘isto’ através do qual a
mente significa ou infere um ‘aquilo’. Logo, tanto a natureza como a função do
Signo peirceano residem, respectivamente, no discurso e na mediação e fundam-se
na acção de articulação entre o Conhecimento e a Realidade. Por outras palavras, o Signo peirceano articula o Objecto com o que
se conhece desse Objecto: “[…] a sign has, as such, three references: first, it
is a sign to some thought which interprets it; second, it is a sign for
some object to which in that thought it is equivalent; third, it is a sign, in
some respect or quality, which brings it into connection with its object”
(Peirce, “Some Consequences […]”, CP 5.283).
O Signo, não
está, portanto, pela ideia ou imagem mental do Objecto, mas sim pelo próprio
Objecto. Para usar a terminologia de Peirce, o Signo é determinado pelo Objecto
ou, se se quiser, é afectado ou causado pela Realidade. Ou ainda: O Signo é a forma
de apresentação da Realidade à Consciência.
Dado que a
semiótica de Peirce está profundamente comprometida com as noções de Realidade
e Objecto, convém, pois, avaliá-las à luz da fenomenologia peirceana.
É na
fenomenologia proposta por Peirce, que se encontram os fundamentos para a sua
teoria geral dos signos. Quer isto dizer que a teoria geral dos signos é
derivada da fenomenologia e, em consequência, se não se estabelece, em Peirce,
uma correlação entre a semiótica e a fenomenologia, a primeira resulta
incompreensível.
Note-se,
também, que é a fenomenologia peirceana que permite enquadrar as noções de
Semiose e de Signo numa discussão mais geral centrada nas noções de Realidade e
Verdade.
Note-se, ainda,
que phaneroscopy é, de acordo com Peirce, a teria dos phanerons,
ou seja, dos fenómenos. A distinção que Peirce estabelece entre fenomenologia e
phaneroscopy não se reduz a uma mera diferença terminológica. A fenomenologia
peirceana trata do que sendo aparente à consciência, independe da consciência,
isto é, não depende nem de formas a priori de sensibilidade nem de categorias a
priori de conhecimento.
Não se
considera aqui, de maneira extensiva, a evolução do pensamento de Peirce, ao
longo da sua obra, apesar de parecer incontestável a utilidade de situar cada
tese de Peirce quer no seu contexto cronológico, quer no contexto comunicativo,
ou seja, no quando e no para quem Peirce emite esta ou aquela tese. Contudo,
deve notar-se que o primeiro esboço da sua fenomenologia surge muito cedo, já
apartir de 1868, e não cessará de sofrer acertos e cambiantes até 1890 .
Note-se, por
fim, que Peirce efectua, através da sua fenomenologia, uma leitura crítica da
fenomenologia kantiana. Ele mantém, tal como Kant, que a apreensão do mundo só
é possível caso a multiplicidade dos fenómenos ou phanerons seja reduzida à
unidade [ou simplicidade] recorrendo, contudo, não a formas a priori de
sensibilidade, nem a categorias a priori do conhecimento, imanentes ao
sujeito que conhece, dadas, não adquiridas, mas sim àqueles modos de ser que,
para Peirce, são objectivos e, logo, apreensíveis através da experiência que é
reflectida, criticada.
A importância da categorização do Mundo
reside na possibilidade de, através dessas categorias, unificar ou simplificar
a multiplicidade das experiências determinadas por esse Mundo: “This paper [a
New List] is based upon the theory already established, that the function of
conceptions is to reduce the manifold of sensuous impressions to unity, and
that the validity of a conception consists in the impossibility of reducing the
content of consciousness to unity without the introduction of it” (Peirce, “On
a New List […]”, §1, CP 1.545,W 2.49).
Qualquer
experiência de conhecimento do Mundo, está continuamente envolvida na oposição
entre multiplicidade e unidade. Duas experiências que apresentem, entre si, uma
ou mais qualidades comuns, como o tempo ou o lugar ou a duração, solicitam ao
observador menos atento a decisão sobre se as considera como repetições de uma
experiência única, isto é, como instâncias de uma regularidade, uma regra ou
hábito, ou as considera como experiências individuais, isto é, como
experiências particulares. Em qualquer dos casos, a decisão tomada deverá
minimizar a multiplicidade e a irregularidade dessas experiências e, portanto,
ampliar a sua capacidade de predição àcerca do comportamento desse Mundo.
Na verdade,
aquilo que a experiência de conhecimento parece demonstrar é a necessidade de
simplificar e unificar a complexidade e a multiplicidade daquilo que é
experimentado. A reflexão explícita sobre as experiências proporcionadas pelo
Mundo, ou seja, a reflexão que, de acordo com Peirce, configura uma Ciência,
parece obedecer, também, à lâmina de Occam: Entia non sunt
multiplicanda praeter necessitatem, ou seja, que a multiplicidade e, logo, a singularidade não sejam aceites
como desejáveis senão após terem sido aceites como necessárias. Veja-se , a
este respeito, Quine, para quem o pensamento científico ambiciona, também,
unificar a multiplicidade existencial: "The deliberate scientist
goes on in essentially the same way, if more adroitly; and a law of least
action remains prominent among his guiding principles. [...]. It is part of the scientist's business
to generalize or extrapolate from sample data, and so to arrive at laws
covering more phenomena than have been checked; and simplicity, by his lights,
is just what guides his extrapolation. [...]" (Quine, 1960; 19).
Os três
principais pontos de vista acerca da oposição entre unidade e multiplicidade e,
mais precisamente, as três principais doutrinas acerca da unificação e
simplificação do fluxo da experiência, remetem para a controvérsia medieval
sobre os Universais, sendo normalmente designados como realismo, conceptualismo
e nominalismo.
O realismo
estipula a realidade objectiva dos Universais ou seja, de entidades abstractas:
classes, atributos, proposições, números, relações e funções. Estas entidades
independem da consciência; esta pode descobri-las mas não as pode criar ou
determinar. Segundo Quine, o logicismo, que corresponde ao realismo no campo da
moderna filosofia da Ciência, representado por Frege, Russel, Witehead, Church
e Carnap, “autoriza o uso de variáveis ligadas para referir, de modo
indiscriminado, entidades abstractas, conhecidads ou desconhecidas,
especificáveis ou não-especificáveis” (Quine, 1980, 1990; 34). O realismo
mantém que os universais, sendo reais, são descobertos pela consciência por
meio dos sentidos.
O
conceptualismo, que para Peirce, é, na verdade, um nominalismo mitigado (verificar Referencia)
estipula que os universais dependem da consciência na medida em que são por ela
produzidos. Segundo Quine, o intuicionismo, que corresponde ao conceptualismo
no campo da filosofia da Ciência, representado por Poincaré e Weil, aceita que
as variáveis ligadas sejam usadas para referir entidades abstractas somente se
estas entidades forem construídas por indução (cf. idem). O conceptualismo
defende que os universais, sendo reais, são inventados pela consciência,
através da inferência indutiva.
O nominalismo
que, a partir do empirismo inglês do século XVII parece marcar o percurso do
pensamento moderno, estipula a negação da realidade objectiva dos Universais e
mantém uma concepção da Realidade reduzida a puros objectos singulares,
concretos e actuais, isto é, a Particulares. Segundo Quine, o formalismo, que
corresponde ao nominalismo na filosofia da Matemática, normalmente associado a Hilbert,
objecta “de todo, à admissão de entidades abstractas, mesmo no sentido restrito
de entidades produzidas pela consciência” (idem). O nominalismo argumenta que
os universais são puros nomes e, como tal, não implicam um significado nem uma
significação. Contudo, , a realidade subjectiva, quanto mais reivindicado na
imediata presença ‘disto’ e ‘daquilo’, aqui e agora, quanto mais
particularizada e, portanto, concreta e
múltipla, tanto mais aparece como fugaz e incompreensível. Segundo Calvo,
“[...] O ‘isto aqui’, o singular, existe, mas não pode dizer-se [parecendo,
pois que o resultado] de um nominalismo rigoroso, ainda que céptico [o
empirismo anglo-saxónico], implica a crise de qualquer possível instituição de
parâmetros para a regulação do afluxo do real à consciência” (cf. Calvo, 1992;
78 e seg.). É esta regulação que em Kant parece ser resolvida pelo juízo
sintético a priori: as condições da possibilidade da experiência em geral são
ao mesmo tempo condição da possibilidade dos objectos da experiência e têm,
portanto, validade objectiva num juízo sintético a priori.
Parece ser esta
mesma regulação que Peirce pretende resolver através das suas três categorias
Cf tb. [Peirce-l] Reality versus
Sensuality
Um modelo topológico:
"...Les triades authentiques de Peirce "... Peirce's genuine
triadic relations
peuvent être représentés à l'aide des can be represented by means of the
figures de la géométrie de cautchone." geometry of the rubber
figures."
Armando Sercovich, 'About the semiotic's
nonexistence', El discurso, el
psiquismo y el registro imaginario, N.V.,
Buenos Aires, 1977
The process of mediation is an oscillatory process that acts to BIND the
elements of the S/R into a 'whole' that becomes the symbol/habit […]Thus
the mediation process acts to achieve this 'compactness' where success
is in the form of a Symbol of the whole S/R event and as such serves as
a
source of stimulus itself, as well as in the formation of a habit - an
instinctive response to the WHOLE S/R event (or more so a variation of
response to the orginal - a refinement in response) (Chris Lofting,
Peirce-l)
Tal como em
Kant, a fenomenologia de Peirce é uma teoria das categorias, entendo-se por
categorias aqueles atributos ou propriedades ou, mais precisamente, aqueles
predicados que são comuns a todos os objectos reais ou seja, a todos os modos
de ser.
Modos de ser,
sublinhe-se, e não modos do Ser, dado que não “[…] haverá já substância [a
partir de 1890] mas apenas relações […]. A proposição não consistirá já de um
termo substantivo e de um termo predicativo que expresse a qualidade da
substância. A proposição consistirá num predicado [ou, segundo Peirce, num
rema] e num índice [index] que confere existência [que materializa, que
concretiza] esse predicado [ou qualidade]” (Deledalle, 2000; 57). Os três modos
de ser podem entender-se, portanto, como modos de relação entre objectos,
tomando-se, aqui, Objecto como aquilo que é predicável, que pode sofrer a
atribuição de predicados.
Pode-se
questionar a equivalência entre modos de ser e modos de relação, entre a
predicação e relação.
A este respeito
e em primeiro lugar, deve-se ter em conta que as categorias peirceanas permitem
decompôr o fenómeno, o phaneron, em elementos não decomponíveis. Estes últimos,
as categorias, podem ser apreendidos ou de forma empírica, através da reflexão
sobre a experiência, ou de forma lógico-matemática. No primeiro caso, ter-se-à
a categoria como um modo de ser. No segundo caso, ter-se-à a categoria como um
modo de relação. Veja-se Peirce, quanto ao primeiro
caso: “Elementary conceptions only arise upon the occasion of experience; that
is, they are produced for the first time according to a general law, the
condition of which is the existence of certain impressions. […] when such a
conception has once been obtained, there is, in general, no reason why the
premises which have occasioned it should not be neglected, and therefore the explaining
conception may frequently be prescinded from the more immediate ones and from
the impressions “ (Peirce, “On a New List […]”, #5, CP 1.549). Veja-se também
Peirce, quanto ao segundo caso: “The unity to which the understanding reduces
impressions is the unity of a proposition. This unity consists in the
connection of the predicate with the subject; and, therefore, that which is
implied in the copula, or the conception of being, is that which completes the
(W2.50) work of conceptions of reducing the manifold to unity” (Peirce, “On a
New List […]”, §4, CP 1.548).
Em segundo
lugar, deve-se também ter em conta que decorre da definição de objecto como
tudo aquilo que é predicável que o predicado é, em si mesmo, um objecto, uma
vez que pode ser objecto de predicação. Tem-se, portanto, que afirmar que “l é
m” ou que “l é m em virtude de p” equivale a afirmar, respectivamente, uma
relação diádica – entre dois objectos
-- e uma relação triádica – entre três objectos. Já afirmar que “algo é p”
equivale a afirmar uma relação monádica uma vez que a expressão refere, apenas,
um dado predicado – o “algo” não é um objecto, mas sim a possibilidade de
existência de um objecto que caia sob o conceito de ser p.
“Art . 1. A triad is something more than
congeries of pairs. For example, A gives B to C. Here are three pairs: A parts
with B, C receives B, A enriches C. But these three dual facts taken together
do not make up the triple fact, which consist[s] in this that A parts with B, C
receives B, A enriches C, all in one act. Take another illustration. There is a
two-way mode of freedom of a particle on a line from A to B. But if there is a
furcation of the line, so that it leads from A to B and C and from B to A and
C, there is an essentially different feature. Thus in triads we must expect to
find peculiarities of which pairs give no hint" (Peirce, THE CATEGORIES,
NEM IV)
Kant havia
proposto doze categorias . Peirce restringe as suas categorias a
não mais que três modos de relação dado que qualquer relação n-ádica, isto é,
em que o número de termos n seja superior a três, é redutível a relações
monádicas, diádicas e triádicas que correspondem, respectivamente, ao o modo de
ser como primeiro, isto é, a primeiridade, ao modo de ser como segundo, isto é,
a secundidade, e ao modo de ser como terceiro, isto é, como terceiridade.
As categorias
de Peirce são portanto, a Possibilidade, a Existência e a Mediação. A Possibilidade
é a propriedade relacional que conta apenas com um termo (Firstness). A
Existência é uma propriedade relacional
entre dois termos, ou seja, a relação de interacção de um objecto com outro
(Secondness). A Mediação é uma propriedade relacional entre três termos
(Thirdness).
Ao Priman
correspondem qualidades gerais, não materializadas: a cor branca, enquanto
brancura, por ex. Ao Secondan correspondem objectos e eventos materiais,
singulares: a cor vermelha, enquanto comprimento de onda da radiação luminosa,
emitida de uma certa fonte, sob certas condições. Ao Tertian correspondem leis gerais e
abstrações: a cor verde, enquanto cor de um objecto, uma bandeira, por ex.,
interpretada como figura retórica.
Note-se que as
categorias peirceanas não se excluem mútuamente: para Peirce, afirmar que um
dado objecto pertence a uma dada categoria, é afirmar que esse objecto se
oferece, neste momento e neste contexto, para efeitos de uma certa análise,
como instância dessa categoria. A Ideia exemplifica,
para Peirce, a simultaneidade das três categorias: “Thus, we have in thought
three elements: first, the representative function which makes it a representation;
second, the pure denotative application, or real connection, which brings one
thought into relation with another; and third, the material quality, or
how it feels, which gives thought its quality” (Peirce, “Some Consequences […]”, CP 5.290).
A distinção
entre Primeiridade, Secundidade e Terceiridade é entendida, portanto, como uma
gradação entre aquelas dimensões ou aspectos pelos quais a experiência da
Realidade é unificada . A este respeito,
leia-se Peirce: “This theory gives rise to a conception gradation among those
conceptions which are universal. For one such conception may unite the manifold
of sense and yet another may be required to unite the conception and the
manifold to which it is applied; and so on (Peirce, “On a New List […]”,§2, CP
1.546).
Na perspectica
de Peirce, não existem experiências cujos objectos sejam inteiramente monádicos,
ou experiências cujos objectos sejam diádicos mas não triádicos, “for he held
that all three categories are applicable to every object which we can possibly
experience”. Contudo, afirmar que qualquer experiência inclui uma relação
triádica não equivale a afirmar que a semiótica “[seja] the single all-embracing science; for our interest in a
thing, scientific or otherwise, might be limited to its dyadic and/or monadic
properties. It does mean, though, that there is nothing
that cannot, in principle, be regarded from the semiotical perspective” mas sim
que “there is no such thing as something which is only a sign” e que
“everything which is a sign necessarily has non-semiotical properties as well”
(Ransdell, “On Peirce’s Conception of …”, §25-26-27).
Tem-se,
portanto, três categorias que sendo três modos de ser, são também três tipos de
relação: a relação do Objecto consigo próprio, ou seja, a relação monádica, a
relação do Objecto com um outro Objecto, ou seja, a relação diádica, e a
relação mediada do Objecto com um outro Objecto através de um terceiro Objecto.
Um exemplo de uma relação monádica é a expressão proposicional “algo é p”, na
qual nada nos indica o que é algo, apenas se afirma que algum objecto possui a
qualidade ou o predicado de ser p. Um exemplo de uma relação diádica é a
proposição “l é m”, na qual, ao contrário da anterior, se indica qual é o
objecto m que possui a qualidade de ser p. Um exemplo de uma relação triádica é
o argumento “se l é p e m é p, então l é m”, na qual se estabelece uma relação
de identidade entre dois objectos l e m a propósito de uma qualidade comum,
serem ambos p, ou seja, é percebida ou conhecida ou abstraída uma dada relação
entre l e m, em virtude de p.
Retomando os
três exemplos anteriores, é possível afirmar que no primeiro caso, a expressão
proposicional assinala a Possibilidade da existência de um objecto ou objectos
que sejam p; que, no segundo caso, a proposição assinala a Existência de um
objecto ou classe de objectos p; que, no terceiro caso, o argumento assinala
uma regra geral, com a qual é possível identificar l com m através da Mediação
de p.
Ora, a pura
Possibilidade, porque é puro predicado, é também pura Qualidade; corresponde a
um dado conteúdo da consciência que Peirce designa como Sensação ou Sentimento
(ibid., CP 5.290).
A pura
Existência, por que é pura individualidade ou, se se quiser, pura Actualidade,
é também pura Relação: corresponde a um dado conteúdo da consciência que Peirce
designa como a pura aplicação denotativa do pensamento (idem).
A pura
Mediação, por que é pura regra geral ou, se se quiser, puro conhecimento, é
pura Representação; corresponde a um dado conteúdo da consciência que Peirce
designa como Conceito e que poderia designar-se, aqui, como abstração ou,mais
precisamente, Discurso (idem).
Em seguida,
como uma hierarquia fundada no método da prescisão (ou prescision, de
prescindere). A Mediação não prescinde da Existência nem da Qualidade, a
Existência não prescinde da Qualidade, mas a Qualidade prescinde da Existência
e da Mediação e a Existência prescinde da Mediação (cf, Peirce, “On a New List
[…]”, §5, CP 1549).
|
Can
we think
|
|
|
blue
without red?
|
space
without color
|
color
without space
|
red
without color
|
|
By
discrimination
|
yes
|
yes
|
yes
|
no
|
|
By
dissociation
|
yes
|
yes
|
no
|
no
|
|
By
prescision
|
yes
|
no
|
no
|
no
|
Cf Deledalle, p. 5
(…………………………..)
Tinha-se já
assinalado que, em Peirce, a teoria geral dos signos, ou seja, a Semiótica é
derivada da sua Fenomenologia ou phaneroscopy. Importa, a este respeito,
sublinhar o seguinte: no contexto da fenomenologia peirceana, a categoria da
Terceiridade é a categoria específicamente semiótica: “There are three kinds of
interest we may take in a thing. First, we may have a
primary interest in it for itself. Second, we may have a secondary interest in
it, on account of its reactions with other things. Third, we may have a
mediatory interest in it, in so far as it conveys to a mind an idea about a
thing. In so far as it does this, it is a sign, or representation
(Peirce, “What Is a Sign?”, §2, 1894, CP 2.281, 2.285, e 2297-302).
Quer isto dizer
que a relação de Representacão -- a relação Signo-Objecto-Interpretante – é a
forma genérica da relação triádica. Que a teoria geral dos signos, no seu
sentido mais preciso, é a teoria geral da Terceiridade. Que, portanto, a
concepção de relação triádica corresponde à concepção formal e abstracta da
relação de Representação: “A very broad and important class of triadics
characters [consist of] representations. A
representation is that character of a
thing by virtue of which, for the production of a certain mental effect, it may stand in place of another
thing. The thing having this character I term a representamen, the mental
effect, or thought, its interpretant, the thing for which it stands, its
object” (Peirce, Notes on "A new list of categories", 1899, CP 1.564)
.
Quer isto
dizer, por fim, que os três termos da relação semiótica, o Signo, o Objecto e o
Interpretante, caiem, respectivamente, sob os três modos de ser fundamentais. O
Signo é um Primeiro, o Objecto é um Segundo e o Interpretante é um Terceiro: “[...] Genuine mediation is the character
of a Sign. A sign is anything which is related to a Second thing, its Object,
in respect to a Quality, in such a way as to bring a Third thing, its
Interpretant, into relation to the
same Object, and that in such a way as to bring a Fourth into relation to that
Object in the same form, ad infinitum. If
the series is broken off, the Sign, in so far, falls short of the
perfect significant character. It is not necessary that the Interpretant should
actually exist. A being in futuro will suffice (Peirce, «Partial synopsis of a
proposed work in logic», 1902, CP 2.92).
Tem-se,
portanto, que se fosse possível metaforizar as categorias de Peirce como
Universos, ter-se-iam os universos da Possibilidade/Qualidade, da
Existência/Actualidade e da
Semiose/Discurso. Reencontra-se, aqui, embora tomada do ponto de vista
de uma classificação dos signos-pensamentos, a distinção entre Tom, Réplica e
Tipo. Existem, com efeito, signos que são Qualidades, signos que são Objectos
particulares e signos que são Conceitos gerais. Poder-se-ia supôr, por fim, que
a estes mundos categoriais e a estas distinções sígnicas, hão-de corresponder,
na filosofia Peirceana, as três ciências normativas da Semiótica ou Lógica
Geral: a Estética, a Ética e a Lógica.
A teoria formal
dos signos é uma teoria abstracta porque, em primeiro lugar, omite tanto o
agente emissor como o agente receptor do Signo e porque, em segundo lugar,
omite o factor tempo associado à sucessão das acções sígnicas determinadas por
um dado objecto, no âmbito de uma dada experiência de conhecimento.
A teoria formal
dos signos, tal como foi construída por Peirce, com base na sua fenomenologia,
é a teoria da Terceiridade e, enquanto tal, descreve todas as possíveis
relações que o Signo mantém com o Interpretante, com o Objecto e consigo
próprio. Sendo a teoria da Terceiridade, é a teoria formal da Representação ou,
se se quiser, a teoria formal do Discurso. Neste sentido, pode afirmar-se que a
teoria formal dos signos consiste na descrição e explicação da estrutura formal
do Pensamento.
...............................................
Cf.
quadro da derivação das tricotomias
Cf.
definição formal .
“A sign may be iconic, that is, may
represent its object mainly by its
similarity, no matter what its mode
of being. If a substantive be wanted, an
iconic representamen may be termed a
hypoicon” (CP 2.276)
"Hypoicons may be roughly
divided according to the mode of Firstness of
which they partake. Those which
partake of simple qualities, or First
Firstnesses, are images; those which
represent the relations, mainly dyadic,
or so regarded, of the parts of one
thing by analogous relations in their
own parts, are diagrams; those which
represent the representative character
of a representamen by representing a
parallelism in something else, are
metaphors (1.277, 1902)".
"The only way of directly
communicating an idea is by means of an icon; and
every indirect method of
communicating an idea must depend for its
establishment upon the use of an
icon (1.278, c. 1895[FL1])."
Considere-se um
determinado Objecto real que é progressivamente apreendido pela inteligência. Consoante
a perspectiva com que esse Objecto é abordado, pode-se fazer a distinção entre
o Objecto enquanto pertencente à Realidade, o Objecto Dinâmico, e o mesmo
Objecto enquanto pertencente à Razão, o Objecto Imediato. O Signo refere de
maneira imediata o Objecto Imediato e de maneira mediata o Objecto Dinâmico .
A pragmática de
Peirce procura responder a isto: em que condições é o Objecto Imediato idêntico
ao Objecto Dinâmico? Resposta pragmática: conceba-se quais são os efeitos
práticos que possam ser produzidos pelo Objecto apreendido; a concepção de
todos estes efeitos é a concepção completa do Objecto.
======
Em Peirce, a inteligência
humana é, antes de mais, uma inteligência científica. Esta inteligência é
científica porque o conhecimento que produz é obtido ou, melhor, inferido a
partir da experiência sensível. Afirmar, portanto, que o método para pensar com
clareza e objectividade é o método científico quer precisamente dizer que o
pensamento é um percurso de indagação, de inquérito, de investigação, numa
palavra, de pesquisa .
Logo, o conhecimento está constantemente sujeito a um processo de verificação e
de correcção, numa aproximação gradual à verdade. Segundo Deledalle, “Pensar é
‘inquirir’, ‘procurar’ por uma dada coisa, pensar que tal coisa foi encontrada,
agir ‘como se’ fosse essa a coisa que procurávamos, antes de recomeçarmos esta
‘busca’ pela verdade a que Peirce chama de falibilismo.” (Deledalle, 2000; 20). A este respeito, Peirce não é menos claro:
“[...] the most that can be maintained is, that we seek for a beliefe that we
shall think to be true.” (Peirce, CP 5.375, The Fixation of Belief, 1877, IV).
A verdade é,
portanto, um limite ideal, para o qual tendem as aproximações graduais
efectuadas por sucessivas pesquisas. Sendo um limite, a natureza da verdade
consiste na concepção completa do objecto da pesquisa: “The Maxim of
Pragmatism, as I originally stated it, Revue Philosophique VII, is as
follows: Considérer quels sont les effets pratiques que nous pensons pouvoir
être produits par l’object de notre conception. La conception de tous ces
effets est la conception compléte de l’object”. (Peirce, CP 5.18). O falibilismo,
juntamente com o conceito de uma verdade sempre provisória, a que Peirce chama
de belief, ou seja, de convicção, esclarecem também o carácter colectivo
e cumulativo da pesquisa científica e a pluralidade das respectivas construções
interpretativas.
Peirce parece
rejeitar aquilo que se poderia designar como uma concepção positivista da Ciência
, segundo a qual a indagação científica pretende descobrir – des-cobrir,
des-velar – algo que já existe. De acordo com esta perspectiva, no quadro da cultura
da Ciência, a uma dada indagação corresponderia uma única resposta verdadeira,
uma única construção interpretativa. Resulta desta perspectiva que a verdade
científica consistiria numa adequatio, ou seja, na adequação da
proposição ao sujeito da proposição, adequação essa verificada através de algum
tipo de método experimental. Para Peirce, a indagação científica é um percurso
infinito, marcado pela dialéctica entre dúvida e convicção. O objectivo desta
indagação não consiste em apaziguar a dúvida, substituindo-a pela convicção;
consiste, isso sim, no estabelecimento de uma opinião, tomando-se, aqui,
opinião como convicção partilhada e colectiva o que, aliás, pressupõe
determinadas regras comunicativas.
Pode alguém aspirar a uma opinião verdadeira, é certo, mas essa aspiração não
será mais que uma fantasia ou um capricho: “We may fancy that this is not
enough for us, and that we seek, not merely an opinion, but a true opinion. But put this fancy to the test, and it proves groundless; for as
soon as a firm belief is reached we are entirely satisfied, whether the belief
be true or false.” (Peirce, CP 5.375, The Fixation of Belief, 1877, IV). Para Peirce, a Ciência é concebida não
como um corpus de conhecimento mas como um percurso colectivo e cumulativo de
indagação, de pesquisa, suportado por uma inteligência que inferencia, isto é,
que conhece esta coisa através de uma inferência efectuada sobre o signo dessa
coisa.
*********[FL2]
Tal como a
percepção não é pensada, por Peirce, como um registo passivo das impressões dos
sentidos, também o pensamento científico não é tomado como acto passivo de
des-cobrimento da realidade, mas como acto positivo que distingue, compõe e
explica – propõe um dado modelo de interpretação -- a aparência dessa
realidade: o pensamento científico propõe, activamente, múltiplas construções
interpretativas para um dado fenómeno. Isto permite aceitar que a abdução, a
lógica da Descoberta, que constitui, como vimos, um dos três momentos da
inferência, se apresente, também, como a lógica da Invenção. De facto, para Peirce, a abdução é também “[...] the only logical
operation wich introduces any new idea; for induction does nothing but
determine a value [um valor de probabilidade], and deduction merely evolves the
necessary consequences of a pure hypothesis.” (Peirce, CP 5.171). A lógica abdutiva ou, mais precisamente, o
argumento abdutivo re-aproxima, singularmente, as disciplinas científicas das
disciplinas artísticas, em particular, daquelas disciplinas artísticas que, tal
como a Arquitectura, estão mais comprometidas com uma ideia e com um método de
Projecto.
Tal como a
semiose, a inferência, que é o seu equivalente epistemológico -- Como é que
pensamos? -- é um único processo triádico, constituído por três momentos
distintos: abdução, indução e dedução. Contudo, se a abrangência do conceito de
Signo diferencia a filosofia de Peirce das tendências da filosofia analítica –
de Frege e Carnap, por ex. – centrada na análise da linguagem natural, a descoberta ou a re-descoberta – esta não é
uma questão tranquila – daquilo que Peirce designa ora como hipótese, ora como
retrodução ora como abdução, distingue a filosofia de Peirce das tendências da
filosofia positivista e obriga a uma revisão das teses empiristas,
transformando a inferência peirceana num instrumento particularmente útil para
descrever e explicar aqueles percursos do pensamento não só caracterizados por
sucessivos momentos de descoberta, exploração e estabilização mas também
destinados a uma dúvida permanente.
..............................
A inteligência
científica é, como se viu, uma inteligência que infere, ou seja, que conhece
isto através daquilo – conheço esta coisa através da mediação daquela coisa. Contudo,
a inferência não se define como um processo ora indutivo ora dedutivo, não
estando, portanto, submetida exclusivamente nem ao império dos factos nem ao
império das leis .
Peirce propõe um terceiro momento constitutivo da
inferência: a abdução ou a lógica da descoberta: “[abduction is] a method of
forming a general prediction without any positive assurance that it will
succeed either in the special case or usually, its justification being that it
is the only possible hope of regulating our future conduct rationally”. (Peirce, CP 2.270).
Com efeito, um
dos mais importantes contributos de Peirce para uma filosofia do Pensamento
consistiu na tese segundo a qual a noção de indução é heterogénea
“compreendendo não uma mas duas espécies distintas de movimento: o movimento da
mente através do qual [se forma] uma hipótese com base na experiência sensorial
[a abdução] e o movimento inverso através do qual confirmamos ou não a nossa
hipótese com referência ao sensorial [a indução]” (Deely, 1982, 1995; 90)
Inicialmente, Peirce associa a dedução à
Matemática, ou seja, associa a dedução à inferência analítica ou necessária, e
a indução e a abdução às restantes ciências, designando-as como inferências
sintéticas. Mais tarde, em 1903, na sexta conferência sobre pragmatismo, há-de
considerar que os três tipos de inferência estão presentes em qualquer
experiência de conhecimento científico: “Abduction is the process of forming an
explanatory hypothesis. It is the only logical operation wich introduces any
new idea; for induction does nothing but determine a value [um valor de
probabilidade], and deduction merely evolves the necessary consequences of a
pure hypothesis. Deduction proves that something must be; Induction shows that
something actually is operative; abduction merely suggests thatsomething may
be. Its only justification is that from its suggestion deduction can draw a
prediction which can be tested by induction, and taht, if we are ever to learn
anything or to understand phenomena at all, it must be by abduction that this
is to be brought about” (CP 5.171).
No seu “Memoranda Concerning Aristotelean
Syllogisme” (1866, W 2.505-510), Peirce argumenta que, ao contrário de
Aristóteles, as segunda e terceira figuras do silogismo não são reduzíveis à
primeira e que “the second and third figures contain other principles, besides”
(idem, W 2.514). As três figuras são, portanto, irredutíveis e correspondem aos
três tipos de inferência: a dedução, a indução e a abdução ou hipótese .
No caso da dedução a premissa maior é uma
regra, a premissa menor é um caso e a conclusão é um resultado. No caso da
indução a premissa maior é um caso, a premissa menor é um resultado e a
conclusão é uma regra. No caso da abdução a premissa maior é uma regra, a
premissa menor é um resultado e a conclusão é um caso .
Para Max Fish, o trabalho de Peirce
desenvolveu-se dentro de âmbito bem determinado e com um objectivo preciso: “[o
âmbito] era a lógica, concebida no início como um ramo de um ramo da semiótica,
mas eventualmente quase coextensiva com a mesma, porém com uma distribuição de
ênfase diferente daquela feita pelos semioticistas que não são lógicos. O
objectivo era distinguir os tipos possíveis de semiose ou funções sígnicas, e,
entre elas, fazer o estudo mais aprofundado que fosse possível dos argumentos
em particular e, acima de tudo, das suas funções na matemática e nas ciências.
A sua conquista mais importante foi a descoberta de que aquilo que a princípio
denominou hipótese e mais tarde abdução ou retrodução é um tipo de argumento
distinto, diferente da dedução e da indução e indispensável tanto na matemática
como nas ciências” (1980; 11)
Note-se que os conceito peirceanos de
indução e dedução são diferentes dos conceitos empíricos. Considere-se a
sucessão ordenada P0, P1, P2, ...., Pn-1, Pn, em que P0 designa os objectos que
são apreendidos na experiência de conhecimento, ou explanandum, Pn
designa a teoria ou o modelo explicativo, ou explanans, e P1, P2 e Pn-1
designam as operações inferenciais que ligam P0 a Pn. A indução empírica é
empírico-indutiva: equivale a um movimento do particular para o geral, do explanandum
para o explanans, no sentido de propôr hipóteses a partir dos dados
observados: P0-->P1-->P2à ....,àPn-1àPn; a dedução empírica é hipotético-dedutiva: movimenta-se do geral
para o particular, do explanans para o explanandum, no sentido de
verificar as hipóteses adquiridas pela indução: PnàPn-1à...àP2àP1àPo (cf. Gardin, 1996; 232). Tem-se portanto, na diferença entre a
indução e a dedução, um “contraste de direcções opostas no processo do
raciocínio entre os mesmos dois pontos”: a construção da hipótese e a sua
avaliação (Eco, 1976; 131-133) .
Este contraste de direcções opostas
parece dever-se, sobretudo, à obra de John Stuart Mill, A System of Logic,
1843. Com efeito, é “a essa obra [...] que se deve a prevalência da opiniao
segundo a qual o raciocínio indutivo, ou a sua teoria -- a Lógica Indutiva -- é
uma descoberta dos modemos [...]Somos inclinados a pensar a Dedução e a Indução como processos
que se movem entre os mesmos pontos, mas em direcções opostas: a Dedução,
pensamos, argumenta a partir de princípios gerais para factos particulares, a
Indução, de factos particulares para princípios gerais. Mesmo que isto fosse
verdadeiro, tal afirmação nada nos diz da diferença na natureza do raciocínio
entre os dois casos. [...] e deixa de fora algumas operações do raciocínio que
merecem mais ser denominadas científicas ” (Joseph, H. W. B., An Introduction to Logic, 1916; 395-397 in
Deely, ibidem, p. 89-90).
De facto, aqueles dois processos de
raciocínio que se movem em direcções opostas não parecem dar conta do terceiro
movimento que se manifesta no ciclo do pensamento científico: o que liga o
enunciado da hipótese à explicação das consequências dessa hipótese. Com
efeito, não basta a uma teoria científica explicar determinados factos, sem
mais exigências; é necessário que essa explicação origine determinadas
previsões sem as quais o valor da teoria é indecidível: “ [...] o objectivo, o
fim de toda a investigação, é o de que a teoria proposta para dar conta de determinados
factos conduza a previsões passíveis de avaliação dentro do mesmo universo de
referência [...]” (Gardin, ibidem, 74-75). Designe-se, então, por Pm os
resultados ou, por outras palavras, as previsões derivadas da teoria Pn. As
inferências que ligam Pn a Pm são deduções: constituem um desenvolvimento
interno ao pensamento de acordo com relações que lhe são próprias, de tal forma
que se a teoria for correcta, a previsão também o será, necessáriamente. Em
consequência, num modelo do ciclo do pensamento científico mais refinado que o
anterior, ter-se-á o momento da indução P0à....àPn, o momento da dedução PnàPm e o
momento da verificação Pmà...àP0.
Contudo os momentos da indução e da
verificação empíricas têm uma identidade comum que os diferencia do momento
dedutivo: enquanto os primeiros correspondem a silogismos que procedem entre
gerais e particulares, dado que resultam do confronto com os objectos
apreendidos na experiência de conhecimento, o segundo é um silogismo que
procede através de universais. Os primeiros são inferências prováveis, o
segundo é uma inferência necessária. Segundo Deely, o “processo geral através
do qual a mente forma, no seu intercâmbio com a natureza sensível, ideias sobre
o modo como essa natureza funciona [a indução] tinha, naturalmente, sido
reconhecido e contrastado com o silogismo (raciocínio dedutivo) desde os tempos
mais remotos, na verdade, já pelo próprio Aristóteles” (1982, 1995; 87). A
evidência de um tal processo geral, de interacção entre o pensamento e os dados
da experiência, parece assegurada pelo facto de que os conceitos não são inatos
mas sim adquiridos pela experiência. A este respeito, Deely recorre a Maritain,
segundo o qual “deve haver, de facto, dois tipos distintos de inferência, uma
que nos introduz ou nos conduz ao conhecimento de coisas universais partindo
dos factos particulares da experiência, e outra que nos leva das proposições
universais previamente formadas a outras proposições no mesmo plano universal”
(idem).
Para Deely, a abdução peirceana é uma
redescoberta na medida em que resulta de uma re-elaboração da distinção que a
escolástica tardia efectuava entre ascensus e descensus,
no interior da indução. Deely fundamenta esta apreciação com base no
trabalho efectuado sobre a obra de João de Poinsot.
É certo que também a escolástica postula
apenas duas maneiras de se adquirir conhecimento científico, a dedução e a
indução, entendidas nos termos atrás referidos: a dedução é, um silogismo que
procede através de universais; a indução procede em termos de singulares,”[…]
pelo facto de que todo o nosso conhecimento tem origem nos particulares
percebidos pelos sentidos” (Liber Tertius Summularum, cap. 3, "Sobre os
Modos e os Meios de Resolver Termos por Ascenso e Descenso.", in Deely,
1995; 89-90). Contudo, se a indução é entendida, num primeiro momento, como um
movimento ascensional, o ascenso, ou seja, um movimento de particulares
suficientemente enumerados para um universal (a indução empírica), e uma vez
que “todos os opostos têm um racional comum” (idem), a indução é também
entendida, num segundo momento, como um movimento oposto,ou seja, o descenso,
tomado como o movimento dos universais para os particulares (a verificação
empírica). “E a indução, no que diz respeito ao ascenso, orienta-se para a
descoberta e a prova de verdades universais enquanto universais, isto e, na
medida em que correspondem aos particulares nelas contidos. Pois não se pode
demonstrar que qualquer coisa o é universalmente excepto partindo do facto de
que as suas instâncias particulares o são. O descenso do universal para o
particular, por outro lado, orienta-se principalmente para demonstrar a
falsidade de um universal enquanto tal. Pois, a melhor forma de estabelecer a
falsidade de um universal é demonstrar que algo que nele está compreendido não
lhe corresponde. Simultaneamente, supor a verdade de um universal estabelecido
e descoberto através do ascenso [abdução] e do descenso [indução] também serve
para mostrar a correspondência entre o universal e os particulares nele
contidos” (Poinsot, idem).
Tem-se portanto, no quadro do pensamento
científico, três inferências distintas, reconhecidas tanto por Peirce como por
alguns autores escolásticos, entre os quais Poinsot: primeiro, a indução em
ascenso, que é, em Peirce, a abdução; segundo, a dedução; terceiro, a indução
em descenso para a qual Peirce reserva a designação de indução. É possível que
a noção peirceana de abdução seja uma re-descoberta da indução em ascenso. No
entanto, o que importa anotar é que “ao conceptualizar o assunto [os modos de
inferência] desta maneira, Peirce caracteristicamente transcende os seus
contemporâneosem direcção a uma compreensão diferente e mais profunda das
fundações e origem do pensamento na experiência, isto é, em direcção à
semiótica” (Deely, ibid., p. 93).
Segundo Peirce, “Uma Abdução é Originária
no que diz respeito a ser o único tipo de argumento que inicia uma nova ideia.
Um Argumento Transuasivo ou Indução é um argumento que se inicia com uma
hipótese, resultante de uma Abdução prévia e de virtuais predições. por via da
Dedução, dos resultados das experiências possíveis e, realizados as
experiências, conclui que a hipótese é verdadeira na medida em que aquelas
predições forem verificadas; sendo esta conclusão, contudo, sujeita a prováveis
modificações para se adequar a futuras experiências” (1902, CP 2.96)
................................
…………………….
Para a economia deste ensaio, a importância da classificação
das Ciências, longamente elaborada por Peirce, em oposição crítica à
classificação proposta por Comte, radica em três aspectos: primeiro, a
concepção geral da Arte como Cîencia prática; segundo, o papel dominante que a
Estética desempenha em relação à Ética e à Lógica; terceiro, o carácter
exemplar que Peirce atribui à Arquitectura. Estes aspectos, tomados em
conjunto, parecem demonstrar que a classificação das Ciências supôe uma
convergência singular entre a cultura da Arte e a cultura da Ciência (verficar.
a respeito deste cap. Lauro Marques, A ESTÉTICA PRAGMATICISTA, Dissertação
apresentada à Banca Examinadora da Pontifícia Universidade Católica de São
Paulo, sob orientação
da Prof.a Dr.a Maria
Lúcia Santaella Braga, USP, data ??? ).
A confirmar esta aproximação, Peirce, nas
últimas versões da sua classificação das Ciências, faz depender a Lógica da
Ética e esta última da Estética: “I begin by explaining the nature of the
normative sciences. […].Their peculiar dualism, which appears in the
distinctions of the beautiful and the ugly, right and wrong, truth and falsity,
and which is one cause of their being mistaken for arts, is really due to their
being on the border between mathematics and positive science; and to this,
together with their great abstractness, is due their applicability to so many
subjects, which also helps to cause their being taken for arts. Having analyzed
the nature of the precise problems of the three [das três ciências normativas],
and given some considerations generally overlooked, I show that ethics depends
essentially upon esthetics and logic upon ethics” (MS L75.359-361, Memoir 9 “On
the Bearing of Esthetics and Ethics Upon Logic”, 1903).
A Classificação
das Ciências, longamente elaborada por Peirce, em oposição crítica à
classificação proposta por Comte, parece também confirmar esta aproximação
entre o conhecimento científico e o conhecimento artístico. Peirce divide as
ciências em dois grandes grupos: as Ciências Teoréticas e as Ciências Práticas
ou Artes, de acordo com um grau decrescente de abstracção e generalidade .
As
Ciências Teoréticas incluem dois sub-grupos: o das Ciências da Investigação ou da
Descoberta – a Matemática, a Filosofia
e as Ciências Especiais, ou seja, as Ciência da Natureza e as Ciência Humanas –
e o das Ciências da Sistematização.
Na introdução a um texto anterior, de
1896, que trata, também, da classificação das ciências ,
Peirce chama atenção para o paralelo traçado por Kant, no terceiro capítulo da
Metodologia, na Kritik der reinen Vernunft, entre a filosofia e a arquitectura,
ou seja, entre uma doutrina filosófica e uma obra arquitectónica. Peirce
adoptará integralmente este paralelo, Conceber a classificação das ciências
como um sistema arquitectónico significa propôr uma articulação das ciências,
tomadas no seu conjunto, como uma rede de dependências e determinações, na qual
as ciências posicionadas mais acima fornecem os fundamentos para as que estão
localizadas mais abaixo (ver quadro): assim, do mesmo modo que a filosofia
extrai da matemática os seus princípios, é da filosofia que as ciências
especiais recebem os seus, e sucessivamente (cf. Santaella 1994: 112). Este
sistema arquitectónico articula-se de acordo com uma estrutura organizada em
ramos, classes, ordens, famílias, géneros, espécies e variações de espécie. “Of
course, there will be sub-branches, sub-classes, etc., down to sub-varieties;
and even sometimes sub-sub-divisions. To illustrate, I call pure science and
applied science different branches, and call mathematics and the special
sciences different classes […]” (Final Version - Ms L75.350-357, Memoir 1, On
the Classification of the Theoretic Sciences of Research).
A. Ciências Teoréticas
I.
Ciências da Descoberta ou Heurísticas
i. Matemática
ii. Filosofia (Cenoscopy)
1.
Fenomenologia
(Phaneroscopy)
2.
Ciências Normativas
a.
Estética
b.
Ética
c.
Lógica (= Semiótica)
Gramática
Lógica
Crítica
Retórica
3.
Metafísica
iii. Ciências Especiais (Idioscopy)
1.
Ciências Humanas
(Psychognosy)
2.
Ciências da Natureza
(Physiognosy)
II.
Ciências da Sistematização (Synthetic Philosophy)
B. Ciências Práticas ou
Artes
Para a compreensão da noção de Ciência
que subjaz a esta classificação, é importante considerar a noção peirceana de
experiência, isto é, de experiência cognitiva (cf. § 1.4.5). Para qualquer uma das ciências especiais, a
experiência consiste naquilo que é diretamente revelado pela método de
observação daquela ciência, recebendo, em seguida, uma interpretação ou teoria,
derivada de conhecimento anteriormente acumulado. De facto, as ciências
especiais ou da Ideoscopia caracterizam-se por depender de observações
especiais efetuadas através de métodos e treinamentos também especiais para
derivar informações de objetos específicos. Contudo, em que consiste a
experiência filosófica ou a experiência artística? Nem a filosofia nem a arte
possuem quer objectos observáveis quer métodos particulares de observação quer
conhecimento anteriormente acumulado que determine, directamente, a
interpretação de uma dada experiência. Para Peirce, é a interpretação em si
mesma que constitui a experiência filosófica (cf. Peirce, CP 7527). Talvez seja
possível extrapolar que é, também, a interpretação em si mesma que constitui a
experiência artística.
Por outro lado, também as Ciências
Práticas ou Artes perseguem a verdade, mas de uma maneira própria, dado que
suas indagações visam satisfazer alguma necessidade humana definida (cf.
Santaella 1992:117). Para Lauro Marques, “a restrição que Peirce faz à pintura
e à escultura [é, na verdade] uma reação a uma certa concepção de ‘belas-artes’
como algo para ser admirado por poucos, da ‘arte pela arte’, como uma instância
separada da vida, o que o impede de considerar a pintura e a escultura […] como
algo mais elevado, ainda que [possa] admirar a individualidade de pensamento e
sentimento presente nelas. A arquitectura, ‘a mais pública das artes’, ao
contrário, seria um exemplo de algo que mais facilmente escaparia a essa
concepção […]. Além de que Peirce iria mais tarde rejeitar a noção de beleza,
para a definição de objeto esteticamente bom, justamente por considerá-la
“muito superficial” : “Beautiful não
serve, porque um modo de ser Kalos
depende essencialmente da qualidade ser não-bela. Talvez contudo, a frase ‘the
beauty of the unbeatiful’ (o belo do não belo) não fosse chocante. Mas ‘beauty’ (beleza) é ainda muito
superficial. Usando-se Kalos, a questão da estética é – Qual é aquela qualidade
que na sua presença imediata, é Kalós?
Dessa questão a ética deve depender, do mesmo modo que a lógica depende da
ética” (CP 2. 199 e CP 5.132, in Lauro Marques). dado que lhe parece que em
arquitectura, ao contrário da escultura ou da pintura, as qualidades que
caracterizariam a expressão artista, o pungente, o gracioso, o talentoso,
desempenhariam um papel secundário.
“Uma grande edificação destina-se a todo um povo, e é erigida com o esforço de
uma parcela significativa de todo um povo. É a mensagem que é a marca de uma
época, e o que ela delega à posteridade” (CP ===, in Lauro Marques).
Para Nathan Houser, o trabalho de
remodelação de Arisbe, que preocuparia Peirce durante todo o período em que lá
viveu, tornar-se-ia uma “metáfora viva para sua vida intelectual” (Houser,
1998; ????).
Cf. Deledalle,
2000 e Max Fisch, 1986
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.............. e, por fim, para as noções
de Realidade e Verdade. Com efeito, o problema da Realidade subsume, em Peirce,
o problema da Verdade. Não se poderia, aliás, esperar menos que uma reflexão
aturada sobre estas duas noções, numa filosofia que coloca a Representação numa
posição de mediação entre a Realidade e o Conhecimento .
Se o problema da Representação se
encontra enfatizado, por Peirce, na sua teoria formal dos signos, os problemas
da Realidade e da Verdade são abordados, respectivamente, no âmbito da sua
fenomenologia, isto é, na teoria das categorias, e no âmbito do pragmatismo, ou
seja, da teoria pragmática dos signos. Note-se que a possibilidade de
considerar a teoria geral dos signos tanto como uma teoria formal, quanto como
uma teoria pragmática, consoante se acentue o signo como objecto ou o signo
como acção é sugerida por Peirce: “I confine the word representation to
the operation of a sign or its relation to the object for the interpreter of
the representation. The concrete subject that represents I call a sign or
representamem” (Peirce, CP 1.540).
Para Peirce, o problema da Verdade remete
para o problema do Conhecimento verdadeiro: a Verdade peirceana não é tomada
como um objecto como, por exemplo, em Frege, mas sim como um predicado Com
efeito, a Verdade é o atributo da cognição cujo objecto é uma entidade real: “The
cognitions which thus reach us by this infinite series of inductions and
hypotheses […] are of two kinds, the true and the untrue, or cognitions whose
objects are real and those whose objects are unreal. And what do
we mean by the real? […]”, (On Some Consequences […]”, 1868, CP 5.311) .
A Realidade, por sua vez, é o que independe da consciência individual:
"The real is what doesn't depend on what we think of it” (Peirce, verificar referência).
Prece retomar-se, assim, a concepção
escolástica segundo a qual a primeira divisão dos objectos do Conhecimento
assenta na distinção entre o ens reale, ou o ser da Realidade, e o ens
rationis, ou o ser da Razão que, em Peirce, parecem corresponder,
respectivamente, ao Objecto Dinâmico e ao Objecto Imediato. No seu “Some
Consequences of Four Incapacities Claimed For Man”, de 1868, Peirce
pergunta-se: “And what do we mean by the real?”, respondendo em seguida: “.
It is a conception which we must first have had when we discovered that there
was an unreal, an illusion; that is, when we first corrected ourselves. Now the
distinction for which alone this fact logically called, was between an ens
relative to private inward determinations, to the negations belonging to
idiosyncrasy, and an ens such as would stand in the long run. The real,
then, is that which, sooner or later, information and reasoning would finally
result in, and which is therefore independent of the vagaries of me and you”
(CP 5.311).
Afirmar que a Realidade independe da
consciência individual corresponde, em Peirce, a afirmar que o Real é o que vem
a ser conhecido após a obtenção de uma informação completa. A definição da
noção de ‘informação completa’ é equivalente à definição de pragmatismo: “[The
writer of this article framed the theory that] if one can define accurately all
the conceivable experimental phenomena which the affirmation or denial of a
concept could imply, one will have therein a complete definition of the
concept, and there is absolutely nothing more in it. For this doctrine he invented
the name pragmatism.” (Peirce, What Pragmatism Is, in The Monist vol. 15
no. 2 (April 1905), pp. 161-181.
A distinção entre o ens reale e o ens
rationis parece corresponder, em Peirce, à distinção entre Objecto Dinâmico,
exterior à Semiose, e Objecto Imediato, que integra a relação de Representação.
Esta distinção, sendo fulcral para a compreensão da Semiótica como
epistemologia, como se viu, é também crucial para a compreensão das noções de
Realidade e Verdade. A este respeito, sublinhe-se o seguinte: a distinção entre
o ser da Realidade e o ser da Razão não é uma separação entre significantes mas
sim uma discriminação dos significados, uma vez que não parece existir, em
Peirce, uma oposição dual entre pensamento e mundo, isto é, uma separação de
facto entre Razão e Realidade. Com efeito, existe apenas um ‘objecto’ que toma
o nome de Real ou da Razão, de Dinâmico ou Imediato, consoante a perspectiva
com que é abordado, e cuja natureza genuína é tanto mais clara quanto mais
aturado e compreensivo for o processo de indagação e pesquisa. Não se orienta
este processo em direcção a uma Verdade pensada como adequação da Razão a
Realidade pré-estabelecida. Orienta-se, sim, para a construção de uma Verdade
que corresponde a uma Realidade construída em simultâneo.
A Verdade é pensada como uma construção
provisória e falível
A subjectividade do sujeito, despojada
de uma ordem externa estável, de um fundamento transcendente, reencontra, na
possibilidade de pré-constituir o futuro, a possibilidade de recuperar um outro
fundamento que regulamente a relação sujeito-objecto. Com efeito, a capacidade
de efetuar juízos sintéticos a priori assegura o real como antecipável e
permite, numa palavra, deduzir o futuro. Estando o homem, doravante em
hipótese, tende a assegurar-se, com essa hipótese, de um futuro de que que
depende a sua própria verdade – tende a projectar-se, anunciando, portanto,
essa solidariedade irrenunciável entre sujeito história e projecto.
… e
terminar com Liszka e Deledalle
Uma resposta provisória: parece legítimo
invocar a semiótica sempre que se procure explicar como é que se comunica, ou
seja, explicar o uso social de significados previamente codificados. Porém,
parece não só legítimo mas também pertinente invocar a semiótica sempre que se
procure explicar como é que se significa, ou seja, como é que se constituem os
significados, (………..)
=============
Retomando a
questão inicial, ácerca das razões que me levam a eleger a teoria semiótica de
Peirce como o quadro dentro do qual desenvolvo a problematização do desenho,
responderia que em primeiro lugar, a sua teoria formal dos signos permite
proporciona um modelo eficaz para o estudo formal desse desenho, executado sobre um corpus de dados empíricos, os desenhos de
arquitectura, e efectuado através de uma operação de decomposição desses
desenhos nas suas categorias elementares. Em segundo lugar, a teoria semiótica
de Peirce promete vir a fundamentar, no terreno da Lógica, a concepção do
desenho e, em particular, do desenho de arquitectura, como efectivo método de
conhecimento, sem que para tal seja necessário recorrer a explicações
psicologistas ou intuitivistas. Com efeito, para Peirce, “[…] Conversely, every
thought proper involves the idea of a triadic relation. For every thought
proper involves the idea of a sign. […] There is a threefold distinction
between signs, which is not in the least psichological in its nature, but is
purely logical, and is of the atmost importance in logic” (MS 462. Lowell Lectures, 2nd Draught of
3rd lecture in Marty, #26).
========
A filosofia de Peirce como uma filosofia
do PROJECTO:
Ora, esta
informação ou concepção completa que corresponde, como se viu, ao conhecimento de
todos os efeitos aparentes produzidos pelo objecto concebido, depende de um
esforço colectivo desenvolvido por uma dada sociedade de linguagem. A Realidade
depende portanto, em última instância, da comunidade ou da sociedade que
persegue, de forma aturada e sistemática, o conhecimento dessa realidade .
Desta forma, “[...] the very origin of the conception
of reality shows that this conception essentially involves the notion of a
COMMUNITY, without definite limits, and capable of an indefinite increase of
knowledge. And so those two series of cognition -- the real and
the unreal -- consist of those which, at a time sufficiently future, the
community will always continue to re-affirm; and of those which, under the same
conditions, will ever after be denied" (ibid., CP 5.311) .
(Ver. 08 de
Dezembro de 2001)
Fernando
Lisboa
Faculdade
de Arquitectura, Universidade do Porto
mailto:fernando@mail.kpnqwest.pt
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