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"(...) todas as vezes que um pintor afirma imitar as coisas como as vê, está a errar. Representá-las-à segundo a sua defeituosa imaginação e realizará um mau quadro. Antes de empunhar o lápis ou o pincel, ele deve ajustar os seus olhos ao raciocínio segundo os princípios da arte que ensina como ver as coisas, não só como se vêm, mas também como devem ser representadas" Abb. Fréart de Chambray, 1662

    Desenho e Mediação

É possível manter, ainda que provisoriamente, que o desenho de arquitectura, no quadro do Projecto, possui uma função instrumental e uma finalidade extrínseca na medida em que remete para a uma dada Construção ou, se se quiser, para uma determinada Arquitectura material.

De um ponto de vista semiótico, o carácter de instrumentalidade do Desenho e o facto de remeter para outra coisa que não ele próprio, acarreta algumas consequências que convém anotar. Em primeiro lugar, trata-se de um desenho cujo referente lhe é duplamente exterior: não só porque se encontra implantado numa realidade que é externa à pura expressão gráfica, que é externa à própria matéria do desenho, mas também porque é esse mesmo referente que afecta o conteúdo significativo desse desenho. Em segundo lugar, trata-se de um desenho que, uma vez tomado na sua objectualidade e individualidade, aparece insaturado, incompleto, disponível para ser preenchido por uma outra construção intelectual mais larga, que lhe traduza e complete o sentido, ou seja, que o significado do desenho de projecto, só aparece no quadro de uma ideia e de uma intenção projectual.

A dupla exterioridade do referente e a insaturação do próprio desenho, num quadro de Projecto, parece sugerir que este desenho corresponde à noção pré-teórica de Signo: alguma coisa, o Signo propriamente dito, que está por alguma outra coisa, o seu referente ou, melhor, o seu Objecto, a respeito de alguma qualidade ou aspecto, o Significado, revelado através uma dada interpretação desse Signo.

Sendo o desenho um signo gráfico-visivo, dado que está por uma outra coisa, pode afirmar-se que o desenho de Projecto está implantado no centro de uma relação triádica, ou seja, de uma relação entre três termos: o próprio Desenho, tomado como concreta produção gráfica, o Projecto, tomado como uma antecipação, que enquadra e interpreta o Desenho-Signo, na medida em que selecciona e enfatiza os seus valores significativos e, por fim, a Arquitectura material. que, embora sendo Objecto colocado no campo da pura possibilidade, determina o Desenho e, através do Desenho, o Projecto. Neste sentido, ao desenho de Projecto é próprio uma estreita aderência à Realidade, neste caso, à realidade construída, a que existe, e à realidade a construir, a que se propõe que venha a existir.

O facto de o desenho de Arquitectura possuir uma função instrumental, não obsta a que possua também uma função estruturante. Sendo o Projecto de Arquitectura uma antecipação de um objecto ou de um evento habitável que, relativamente ao futuro, é qualificado como possível, como positivo e como necessário, essa antecipação é necessariamente simbólica, ou seja, é construída e conduzida por uma Linguagem. Ora, se se considerar que a Linguagem, uma dada linguagem, constitui não só o suporte de actos comunicativos, mas também o lugar para problematizar os conteúdos comunicativos ou, mais precisamente, para problematizar os significados que se comunicam, compreende-se porquê que o Desenho, não sendo a única linguagem do Projecto, assume, no Projecto, uma função estruturante.

Do acordo àcerca das funções instrumental e estruturante do Projecto, resulta a compreensão do Desenho como experiência de comunicação e de pesquisa e, logo, como experiência semiótica.

O desenho aparece aqui como processo heurístico, modo de apreensão que qualifica e estrutura o percurso do Projecto em direcção ao seu Objecto material. O desenho assume, sempre, as qualidade de representação, de compreensão e comunicação. No centro, o Sujeito perante o Objecto, intermediado pelo Signo.Este entendimento do Desenho pressupõe, naturalmente, que, de um ponto de vista conceptual, se alargue o conceito de Significação ao conceito de Inferência e que este conceito de Inferência descreva e explique processos intelectuais caracterizados pela invenção e criatividade.  Com efeito, uma teoria do desenho de projecto há-de ser, também, uma teoria da indagação e da pesquisa desenhada.

Tanto este alargamento conceptual da Significação à Inferência como a estreita aderência que o Desenho, enquanto Signo, mantém com a realidade, e, em consequência, a noção de uma relação ternária dentro da qual o desenho actua como mediação entre um dado Objecto e o respectivo Significado, contrariam, por um lado, algumas tendências centrais da tradição Semiológica e confirmam, por outro lado, algumas noções centrais da tradição Semiótica.

120 Desenhos de Arquitectura
Gudea, Nipur, Forma Urbis, Canterbury, Palimpsestos de Reims, Villard d' Honnecourt, Siena, Strasbourg, Constância, Buondelmonti, Filarete, Hans Hammer, Mathias Roriczer, Hans Schmutter Mayer, Codex Coner, Giuliano da Sangallo, Sansedoni, Donato Bramante, Hans Boblinger, Rafael, Fra Giocondo, Antonio da Sangallo, Cesare Cesariano, Miguel Angelo Buonarroti, Baldassare Peruzzi, Sebastiano Serlio, Philibert de l'Orme, Andrea Palladio, Giovanni Antonio Dosio, Giacomo Barozzi da Vignola, Étienne Duperac, J. A. du Cerceau, Robert Smythson, Vicenzo Scamozzi, Salomon de Brosse, Pietro da Cortona, Inigo Jones, Balthazar Gerbier, John Webb, Christopher Wren, Claude Perrault, William Talman, J. Vanbrugh, Nicholas Hawksmoor, Andrea Pozzo, Ferdinand Bibiena, James Gibbs, Filipo Juvarra, Johann Bernhard Fischer von Erlach, Guarino Guarini, Giambattista Nolli, Giambattista Piranesi, Matthew Brettingham, Robert Adam, Antonio Canaletto, William Chambers, Edward Stevens, Jean Laurent Legeay, Ottavio Bertotti Scamozzi, Étienne Louis Boullée, Charles Joachim Bernard, Giacomo Guarenghi, Humphry Repton,  Claude Nicolas Ledoux, Joseph Bonomi, Joseph Michael Gandy, JNL Durand, Jacques Ignace Hittorf, Louis Duc, Charles R. Cockerell, Joseph Paxton, Emmanuel Brune, William Burgess, Charles Garnier, François Chabrol, Eugéne Viollet-le-Duc, George Devey, W. Butterfield, A. Waterhouse, G. Aitchinson, Richard Shaw, Horace Jones, Paul Letarouilly, Edward Lutyens, F. L. Wright, H. Wilson, Auguste Choisy, Otto Wagner, Charles F. Mewés, Gaudi, Van Doesburg e Van Eesteren, Le Corbusier, Gunnar Asplund, Eric Mendelsohn, Alvar Aalto, Louis Kahn, Ettore Sotsass, Rob Krier, Raymond McGrath, Corbett, A. Schindler, H. Casson, A. Rossi, Arup Ass., John Hejduk, A. Siza Vieira

 

   

Fernando Lisboa
Faculdade de Arquitectura, Universidade do Porto
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